domingo, 29 de julho de 2007
Momentos em cena
Breve, porém importante, prólogo:
Esta história não contem plágios, apenas homenagens. A honraria, claro que para mim, é contar com três belas cenas de três maravilhosos filmes. Para quem desejar, fica o desafio: tente adivinha-los. Na verdade, estas palavras contêm uma quarta homenagem: para minha grande amiga Ana Paula, sobre quem tenho certeza que continuará seguindo sem desistir jamais. Boa leitura.
Meu Deus, já são cinco horas. Os despachos acumulam-se na minha mesa jogando em meu rosto o atraso inevitável. Impossível não olhar para minha cela de labuta sem imaginar um fosso de cobras amaldiçoadas pelo veneno de mais um dia de trabalho burocrático. Meu rosto impassível disfarçaria para qualquer observador a luta épica que se travava em meu ser entre minha essência workaholic e a vontade de encontrar-me com meu destino. Como deveria estar meu olhar agora? Se é que ainda tenho um olhar, pois às vezes nem sei se continuo com minha alma. Este último pensamento encheu meu terno de coragem, que tomado de vontade própria jogou-se contra o medievo fosso sem se importar com a descarga de adrenalina que meu coração teve que subitamente suportar. Ficaram para trás as cobras, os relatórios e os sonhos frustrados pelos quais nunca lutei, formando um melancólico teatro de fantasmas sombrios, que me direcionaram um último olhar de inveja por ter conseguido escapar. Ainda volto para liberta-los.
De uma só passada aterrizei no elevador que me conduziria ao térreo do Rio Branco 165. Do topo ao térreo, do meu esterelizado céu imaginário às calçadas sujas de pedras portuguesas deslocadas. Rumo ao meu destino. Apenas a uma espera e rostos cotidianos adentrando a cada andar. Mar de olhares vividos diversamente. Como a moça de face cansada de atuar em um dos diversos apartamentos do edifício subdivididos em placebos para a solidão alheia. Seus olhos enviavam mensagens implorando por socorro urgente. Meus olhos recebiam esses sinais com a compreensão de quem já os produziu. Pois essa era a principal rotina deles na primeira vez em que cruzei com meu destino, quando estávamos naquele congresso sobre números, potencialização de lucros e formas não-ditas e diversas de pensar sobre suicídio. Na cafeteria, quando ela percorreu meus braços com seus dedos, nunca nada me pareceu tão correto. A maneira como ela fechava os olhos e inclinava levemente seu rosto, enquanto eu percorria calmamente seus lábios, nunca nada me pareceu tão correto. Enquanto Nina Simone nos hipnotizava melodiosamente, nos trazendo em sua voz almas salvas de noites solitárias no momento certo, você dançando de olhos fechados me alertando sobre a possibilidade d'eu não conseguir voltar para a minha mesmice lentamente letal. A coragem ter sugerido ao pé de meu ouvido concordar com seu alerta como minha promessa de eterna entrega a você, nunca nada me pareceu tão correto.
Lembranças presas na gaiola de metal que descia de forma lenta, hesitante, ouso dizer. O mar se revoltava de mais e mais correntezas de destinos incertos. Um par de olhos sábios o suficiente para pousar no mundo com a sensação de maravilhamento de como quem vive pela primeira vez. Por baixo de aros pesados de plástico escuro, o conhecimento de que para se manter a chama da primeira vez, basta vivê-la sempre de forma diferente, ainda que com a mesma pessoa. Repetir não é viver, e sim o nobre ofício de papagaios e pessoas pequenas. Ou seja, tudo a que se resumia minha rotina aspirante à vida. Ou seja, tudo que, para minha bênção, foi dragado pelo teu corpo em L ao meu lado, com teus longos cabelos negros emoldurando todas as razões para eu jamais deixar de ser digno de seu olhar de entrega. O mesmo sol que te levou pela manhã me mostrou, enquanto atordoado eu procurava por possíveis vestígios teus, o pedaço de papel amassado com um telefone de hotel escrito com batom.
“O que você quer pedir?”
“Pergunta metafísica ou pragmática mesmo?”
“Como?”
“Nada. Uma cerveja escura. Mais para adocicada.”
“Uma garrafa de Periquita e a melhor marca de brown ale que você tiver, por favor.”
“Meu Deus. Como você pode ser tão obtuso?”
“Tudo bem... garçom, você poderia trocar a Brown ale por uma skolzinha mesmo?”
“Nossa, eu poderia gargalhar agora! Só não o faço porque é a minha vida e você continua parte dela. Estou cansada de investir em algo natimorto, nunca consegui entender se você realmente tem capacidade para se importar ou não. Distância não se mede só pelo espaço físico, mas pela intensidade do olhar. E cada vez que tento ver se há qualquer resquício de vida aí dentro, eu que acabo morrendo. Lentamente. É muito chato ouvir sua própria marcha fúnebre. Desde nossa primeira noite no hotel até todas as outras. É por isso que estou indo embora.”
“Mas... talvez eu seja somente um morto aprendendo a viver pela primeira vez com você e...”
“Mais alguma coisa, senhor?”
“Como? Onde está...”
“A tua companhia, senhor? Creio que ela está entrando naquele táxi agora.”
“parem aquele táxi...”
“Se me permite, caso o senhor corra em direção ao veículo bradando ao invés de sibilar pateticamente, talvez surta o efeito que acho que o senhor pretende”
“PAREM A MERDA DO TÁXI!”
“Como, amigo, é comigo? Você está bem, correndo como um louco, esse olhar desesperado como quem estagnou eternamente no último suspiro antes de morrer? Senhora, você tem certeza que quer baixar a janela para falar com este louco?”
“O que você quer?”
“Eu... não vou conseguir dormir esta noite”
“Eu também não”
Não consigo situar em época alguma quando se deu nosso último diálogo, apesar de me lembrar da respiração exata onde cada sílaba foi libertada. É como se eu o tivesse arrancado do tempo e o emoldurado dentro da minha alma, eu sempre soube que você iria marcá-la de alguma maneira, eternamente. Agora, só preciso arranjar um jeito de fazer parar de doer e soprar vida na lembrança de você, para que possamos repintar tudo com as cores fortes da tua personalidade que se impõem pelo seu olhar. Meus Deus, não perdi a mania de falar contigo como se estivesses ao meu lado. Depois de todo esse tempo, minha alma tentou escapar pela minha garganta quando te vi olhando sarcasticamente as pinturas de celebridades feitas pelos artistas de rua da Rio Branco. Como se ela se jogasse em direção à tua com a certeza da necessidadede rumar ao seu destino. Observei-te semanas, tentando criar o momento perfeito para retomar você. O fato d'eu finalmente ter caído em mim que momentos perfeitos são os espontâneos mostra que finalmente conseguiremos viver de forma plena o que merecemos. Da janela do táxi, te busco pelo trajeto que você fez ao longo de toda essa semana. De repente, uma silhueta de costas. A tua. É hora. Salto para você ignorando banalidades como trocados e transeuntes, não voltarei a parar até te alcançar. Naquela hora, as janelas que fitavam de cima a correnteza humana daquela avenida movimentada viram tua face baixa, encostada em meu ombro, bailando candidamente ao sabor da gravidade, e meus ouvidos sussurando palavras que sempre só pertencerão a nós. Naquele dia, todos aqueles prédios tão altos viram dois destinos serem selados. Para sempre.
Esta história não contem plágios, apenas homenagens. A honraria, claro que para mim, é contar com três belas cenas de três maravilhosos filmes. Para quem desejar, fica o desafio: tente adivinha-los. Na verdade, estas palavras contêm uma quarta homenagem: para minha grande amiga Ana Paula, sobre quem tenho certeza que continuará seguindo sem desistir jamais. Boa leitura.
Meu Deus, já são cinco horas. Os despachos acumulam-se na minha mesa jogando em meu rosto o atraso inevitável. Impossível não olhar para minha cela de labuta sem imaginar um fosso de cobras amaldiçoadas pelo veneno de mais um dia de trabalho burocrático. Meu rosto impassível disfarçaria para qualquer observador a luta épica que se travava em meu ser entre minha essência workaholic e a vontade de encontrar-me com meu destino. Como deveria estar meu olhar agora? Se é que ainda tenho um olhar, pois às vezes nem sei se continuo com minha alma. Este último pensamento encheu meu terno de coragem, que tomado de vontade própria jogou-se contra o medievo fosso sem se importar com a descarga de adrenalina que meu coração teve que subitamente suportar. Ficaram para trás as cobras, os relatórios e os sonhos frustrados pelos quais nunca lutei, formando um melancólico teatro de fantasmas sombrios, que me direcionaram um último olhar de inveja por ter conseguido escapar. Ainda volto para liberta-los.
De uma só passada aterrizei no elevador que me conduziria ao térreo do Rio Branco 165. Do topo ao térreo, do meu esterelizado céu imaginário às calçadas sujas de pedras portuguesas deslocadas. Rumo ao meu destino. Apenas a uma espera e rostos cotidianos adentrando a cada andar. Mar de olhares vividos diversamente. Como a moça de face cansada de atuar em um dos diversos apartamentos do edifício subdivididos em placebos para a solidão alheia. Seus olhos enviavam mensagens implorando por socorro urgente. Meus olhos recebiam esses sinais com a compreensão de quem já os produziu. Pois essa era a principal rotina deles na primeira vez em que cruzei com meu destino, quando estávamos naquele congresso sobre números, potencialização de lucros e formas não-ditas e diversas de pensar sobre suicídio. Na cafeteria, quando ela percorreu meus braços com seus dedos, nunca nada me pareceu tão correto. A maneira como ela fechava os olhos e inclinava levemente seu rosto, enquanto eu percorria calmamente seus lábios, nunca nada me pareceu tão correto. Enquanto Nina Simone nos hipnotizava melodiosamente, nos trazendo em sua voz almas salvas de noites solitárias no momento certo, você dançando de olhos fechados me alertando sobre a possibilidade d'eu não conseguir voltar para a minha mesmice lentamente letal. A coragem ter sugerido ao pé de meu ouvido concordar com seu alerta como minha promessa de eterna entrega a você, nunca nada me pareceu tão correto.
Lembranças presas na gaiola de metal que descia de forma lenta, hesitante, ouso dizer. O mar se revoltava de mais e mais correntezas de destinos incertos. Um par de olhos sábios o suficiente para pousar no mundo com a sensação de maravilhamento de como quem vive pela primeira vez. Por baixo de aros pesados de plástico escuro, o conhecimento de que para se manter a chama da primeira vez, basta vivê-la sempre de forma diferente, ainda que com a mesma pessoa. Repetir não é viver, e sim o nobre ofício de papagaios e pessoas pequenas. Ou seja, tudo a que se resumia minha rotina aspirante à vida. Ou seja, tudo que, para minha bênção, foi dragado pelo teu corpo em L ao meu lado, com teus longos cabelos negros emoldurando todas as razões para eu jamais deixar de ser digno de seu olhar de entrega. O mesmo sol que te levou pela manhã me mostrou, enquanto atordoado eu procurava por possíveis vestígios teus, o pedaço de papel amassado com um telefone de hotel escrito com batom.
“O que você quer pedir?”
“Pergunta metafísica ou pragmática mesmo?”
“Como?”
“Nada. Uma cerveja escura. Mais para adocicada.”
“Uma garrafa de Periquita e a melhor marca de brown ale que você tiver, por favor.”
“Meu Deus. Como você pode ser tão obtuso?”
“Tudo bem... garçom, você poderia trocar a Brown ale por uma skolzinha mesmo?”
“Nossa, eu poderia gargalhar agora! Só não o faço porque é a minha vida e você continua parte dela. Estou cansada de investir em algo natimorto, nunca consegui entender se você realmente tem capacidade para se importar ou não. Distância não se mede só pelo espaço físico, mas pela intensidade do olhar. E cada vez que tento ver se há qualquer resquício de vida aí dentro, eu que acabo morrendo. Lentamente. É muito chato ouvir sua própria marcha fúnebre. Desde nossa primeira noite no hotel até todas as outras. É por isso que estou indo embora.”
“Mas... talvez eu seja somente um morto aprendendo a viver pela primeira vez com você e...”
“Mais alguma coisa, senhor?”
“Como? Onde está...”
“A tua companhia, senhor? Creio que ela está entrando naquele táxi agora.”
“parem aquele táxi...”
“Se me permite, caso o senhor corra em direção ao veículo bradando ao invés de sibilar pateticamente, talvez surta o efeito que acho que o senhor pretende”
“PAREM A MERDA DO TÁXI!”
“Como, amigo, é comigo? Você está bem, correndo como um louco, esse olhar desesperado como quem estagnou eternamente no último suspiro antes de morrer? Senhora, você tem certeza que quer baixar a janela para falar com este louco?”
“O que você quer?”
“Eu... não vou conseguir dormir esta noite”
“Eu também não”
Não consigo situar em época alguma quando se deu nosso último diálogo, apesar de me lembrar da respiração exata onde cada sílaba foi libertada. É como se eu o tivesse arrancado do tempo e o emoldurado dentro da minha alma, eu sempre soube que você iria marcá-la de alguma maneira, eternamente. Agora, só preciso arranjar um jeito de fazer parar de doer e soprar vida na lembrança de você, para que possamos repintar tudo com as cores fortes da tua personalidade que se impõem pelo seu olhar. Meus Deus, não perdi a mania de falar contigo como se estivesses ao meu lado. Depois de todo esse tempo, minha alma tentou escapar pela minha garganta quando te vi olhando sarcasticamente as pinturas de celebridades feitas pelos artistas de rua da Rio Branco. Como se ela se jogasse em direção à tua com a certeza da necessidadede rumar ao seu destino. Observei-te semanas, tentando criar o momento perfeito para retomar você. O fato d'eu finalmente ter caído em mim que momentos perfeitos são os espontâneos mostra que finalmente conseguiremos viver de forma plena o que merecemos. Da janela do táxi, te busco pelo trajeto que você fez ao longo de toda essa semana. De repente, uma silhueta de costas. A tua. É hora. Salto para você ignorando banalidades como trocados e transeuntes, não voltarei a parar até te alcançar. Naquela hora, as janelas que fitavam de cima a correnteza humana daquela avenida movimentada viram tua face baixa, encostada em meu ombro, bailando candidamente ao sabor da gravidade, e meus ouvidos sussurando palavras que sempre só pertencerão a nós. Naquele dia, todos aqueles prédios tão altos viram dois destinos serem selados. Para sempre.
terça-feira, 17 de julho de 2007
Ligeiro desabafo
Senhor. De um lado, Celso Roth e o tal do 3-6-1. De outro, Dunga, 4 cabeças-de-bagre, e a imprensa incensando o futebol que só ela e os seguidores de Lazaroni viram. Obina e Abedi substituíram Zico e Roberto, Romário e Bebeto e, vá lá, Edmundo e Sávio. São tempos estranhos, e o Maracanã cada dia mais me surge como um templo altero, distante. Eu não quero viver em um mundo de meninos lutando para comprar a camisa 5 no lugar da 10. Se lágrimas descessem do meu rosto agora, elas se organizariam com apenas um atacante e nenhum meia capaz de dar um passe de mais de 5 metros. Eu não quero viver em um mundo onde meninos comemoram o desarme no lugar do balãozinho. Se lágrimas descessem do meu rosto agora, elas cometeriam cerca de 30 faltas por tempo, às ordens de um "professor". Eu também sou professor, mas não mando meus alunos colarem. Eu não quero viver em um mundo onde meninos não acreditam mais em amor à primeira vista e futebol espetáculo. Aliás, grafemos como futebol-espetáculo. Torçamos para que o hífen preserve o que ex-cabeças de área medíocres querem separar.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Lewis Hamilton
Texto de autoria do meu grande amigo, profundo conhecedor dos mistérios automobilísticos, e arqueduque de Magalhães Bastos: Fernando Gil, ou, para os que merecem, Dom Ferdinando. Meu nobre, este espaço é teu sempre que manifestar vontade!
Em todos os sites especializados, colunas nos jornais, programas de televisão, boletins de rádio e conversas entre fãs de automobilismo, o deslumbramento é geral: “Lewis Hamilton é um gênio” é a frase sempre ouvida, mesmo da boca dos mais céticos. Não é para menos: nas sete primeiras corridas de Fórmula 1 na vida, sete pódios consecutivos, duas vitórias, duas poles e a liderança do campeonato. Seu companheiro de equipe: o atual bicampeão Fernando Alonso, que ganhou dois títulos em cima de Michael Schumacher. A equipe: McLaren, que antes do início do campeonato era considerada inferior a Ferrari. E, como corolário da estupefação mundial com o jovem Hamilton, o rapaz prodígio ostenta o título de ser “o primeiro piloto negro na história da Fórmula 1” (tudo bem, aqui no Brasil ele estaria a anos-luz de ser “negão”, mas considere o Reino Unido, seu habitat natural).
Estreantes surpreendentes e promissores não são novidades na Fórmula 1. Em 1950, claro, todos (ainda que alguns já fossem veteranos) eram estreantes, porque a própria categoria o era. Portanto, a primeira corrida, vitória e título de Giuseppe Nino Farina não contam aqui. Mas podemos lembrar de Emerson Fittipaldi, que conquistou sua primeira vitória logo na quarta corrida, em 1970; de Jean Alesi, que no seu primeiro GP, o da França de 1989, terminou em quarto lugar depois de estar em segundo durante a corrida, isso na medíocre Tyrrell; de Montoya, que quase venceu sua primeira corrida na categoria num dos seus primeiros GPs, o do Brasil de 2001; e outras histórias que os 57 anos de competição colecionam. Todavia, mesmo o espanhol mais “alonsomaníaco” há de reconhecer que Hamilton já ultrapassou, pelo menos em matéria de estreante, o limite do plausível. Ele simplesmente ainda não errou, nem em volta rápida de classificação (o que não quer dizer que tenha sido sempre o mais rápido; Fittipaldi quase não fez pole position em sua carreira, mas também quase não errava), nem durante uma corrida. Por exemplo: o inglês tirou as quatro rodas de sua McLaren do asfalto em Mônaco – em Mônaco! Sabe o que é deixar o carro no ar em Mônaco e não bater? Eu não sei. Ainda acho que foi truque da câmera.
Um fenômeno, impossível negar. Até quando ele vai durar? Diz a sabedoria popular que, quanto maior o salto, maior a queda. Isso pode ser verdade. Mas não se viu ainda nenhuma atitude de altivez em Hamilton, dentro ou fora das pistas. No Canadá, ao estacionar o carro depois de fazer a pole, o inglês foi cumprimentar Alonso, que retribuiu ao seu estilo, ou seja, sem nenhum espírito esportivo. Teve que se redimir nos EUA, chegando ao pódio abraçado com Hamilton, numa jogada de marketing do politicamente correto, feita pela McLaren. Aliás, também é evidente que o carro da equipe inglesa tem uma parcela de “culpa” importantíssima no sucesso de Hamilton porque, contrariando as expectativas, está num patamar superior as Ferraris nesta primeira metade da temporada. Ou seja, o que vai acontecer quando o carro falhar, ou a Ferrari acordar? Ou, pior, quando Hamilton errar? Ganhar e perder faz parte de todo esporte, a motor ou não. Stewart, Lauda, Senna, Prost, Schumacher, todos erraram em várias ocasiões, e como erraram! Lewis irá errar, pode ser no próximo GP ou no outro, no outro... Mesmo assim, continuará no lucro se errar por culpa alheia, como se envolver num acidente (provocado por outrem), ser vítima de falha mecânica (culpa da equipe), ou por uma apoteótica recuperação da Ferrari, ou mesmo se cometer um erro “desculpável”. Mas, se cometer um daqueles erros que chamam de “infantis”, e pior ainda, se repeti-los, aí sim, os críticos de plantão vão começar a achincalhá-lo, denegri-lo e desmerecê-lo, tão equivocadamente como os seus mais entusiastas adoradores hoje fazem no sentido contrário.
Pepe, o santista da década de 60, diz que é o maior artilheiro da história do Santos porque, acima dele, só Pelé, e este, segundo Pepe, não é terráqueo, mas de outra galáxia. Dizem que nunca haverá um jogador como Pelé. É um juízo compreensível, mas temerário. Quem garante o quê? Depois de Schumacher, ouvi Reginaldo Leme dizer com todas as letras na televisão: “os recordes de Schumacher nunca serão batidos”. Será? Hamilton é mais novo do que eu. Schumi correu até 35, 36. Quanto tempo o inglês ainda tem? Só peço uma coisa: não peçam para o alemão voltar por causa de Lewis. Pode ser coisa de historiador (desempregado), mas não queiram impor uma competição que o destino (ou Ron Dennis) não quis que houvesse. Schumacher não teve concorrentes à altura entre 1994 e 2004. Deixemos Hamilton onde e como está, para ver se ele tem, ou não, tais concorrentes.
Em todos os sites especializados, colunas nos jornais, programas de televisão, boletins de rádio e conversas entre fãs de automobilismo, o deslumbramento é geral: “Lewis Hamilton é um gênio” é a frase sempre ouvida, mesmo da boca dos mais céticos. Não é para menos: nas sete primeiras corridas de Fórmula 1 na vida, sete pódios consecutivos, duas vitórias, duas poles e a liderança do campeonato. Seu companheiro de equipe: o atual bicampeão Fernando Alonso, que ganhou dois títulos em cima de Michael Schumacher. A equipe: McLaren, que antes do início do campeonato era considerada inferior a Ferrari. E, como corolário da estupefação mundial com o jovem Hamilton, o rapaz prodígio ostenta o título de ser “o primeiro piloto negro na história da Fórmula 1” (tudo bem, aqui no Brasil ele estaria a anos-luz de ser “negão”, mas considere o Reino Unido, seu habitat natural).
Estreantes surpreendentes e promissores não são novidades na Fórmula 1. Em 1950, claro, todos (ainda que alguns já fossem veteranos) eram estreantes, porque a própria categoria o era. Portanto, a primeira corrida, vitória e título de Giuseppe Nino Farina não contam aqui. Mas podemos lembrar de Emerson Fittipaldi, que conquistou sua primeira vitória logo na quarta corrida, em 1970; de Jean Alesi, que no seu primeiro GP, o da França de 1989, terminou em quarto lugar depois de estar em segundo durante a corrida, isso na medíocre Tyrrell; de Montoya, que quase venceu sua primeira corrida na categoria num dos seus primeiros GPs, o do Brasil de 2001; e outras histórias que os 57 anos de competição colecionam. Todavia, mesmo o espanhol mais “alonsomaníaco” há de reconhecer que Hamilton já ultrapassou, pelo menos em matéria de estreante, o limite do plausível. Ele simplesmente ainda não errou, nem em volta rápida de classificação (o que não quer dizer que tenha sido sempre o mais rápido; Fittipaldi quase não fez pole position em sua carreira, mas também quase não errava), nem durante uma corrida. Por exemplo: o inglês tirou as quatro rodas de sua McLaren do asfalto em Mônaco – em Mônaco! Sabe o que é deixar o carro no ar em Mônaco e não bater? Eu não sei. Ainda acho que foi truque da câmera.
Um fenômeno, impossível negar. Até quando ele vai durar? Diz a sabedoria popular que, quanto maior o salto, maior a queda. Isso pode ser verdade. Mas não se viu ainda nenhuma atitude de altivez em Hamilton, dentro ou fora das pistas. No Canadá, ao estacionar o carro depois de fazer a pole, o inglês foi cumprimentar Alonso, que retribuiu ao seu estilo, ou seja, sem nenhum espírito esportivo. Teve que se redimir nos EUA, chegando ao pódio abraçado com Hamilton, numa jogada de marketing do politicamente correto, feita pela McLaren. Aliás, também é evidente que o carro da equipe inglesa tem uma parcela de “culpa” importantíssima no sucesso de Hamilton porque, contrariando as expectativas, está num patamar superior as Ferraris nesta primeira metade da temporada. Ou seja, o que vai acontecer quando o carro falhar, ou a Ferrari acordar? Ou, pior, quando Hamilton errar? Ganhar e perder faz parte de todo esporte, a motor ou não. Stewart, Lauda, Senna, Prost, Schumacher, todos erraram em várias ocasiões, e como erraram! Lewis irá errar, pode ser no próximo GP ou no outro, no outro... Mesmo assim, continuará no lucro se errar por culpa alheia, como se envolver num acidente (provocado por outrem), ser vítima de falha mecânica (culpa da equipe), ou por uma apoteótica recuperação da Ferrari, ou mesmo se cometer um erro “desculpável”. Mas, se cometer um daqueles erros que chamam de “infantis”, e pior ainda, se repeti-los, aí sim, os críticos de plantão vão começar a achincalhá-lo, denegri-lo e desmerecê-lo, tão equivocadamente como os seus mais entusiastas adoradores hoje fazem no sentido contrário.
Pepe, o santista da década de 60, diz que é o maior artilheiro da história do Santos porque, acima dele, só Pelé, e este, segundo Pepe, não é terráqueo, mas de outra galáxia. Dizem que nunca haverá um jogador como Pelé. É um juízo compreensível, mas temerário. Quem garante o quê? Depois de Schumacher, ouvi Reginaldo Leme dizer com todas as letras na televisão: “os recordes de Schumacher nunca serão batidos”. Será? Hamilton é mais novo do que eu. Schumi correu até 35, 36. Quanto tempo o inglês ainda tem? Só peço uma coisa: não peçam para o alemão voltar por causa de Lewis. Pode ser coisa de historiador (desempregado), mas não queiram impor uma competição que o destino (ou Ron Dennis) não quis que houvesse. Schumacher não teve concorrentes à altura entre 1994 e 2004. Deixemos Hamilton onde e como está, para ver se ele tem, ou não, tais concorrentes.
terça-feira, 26 de junho de 2007
Estrelas urbanas
Engraçado. Sabe aqueles mantras que as pessoas recitam para si e para o mundo? Aquelas frases que parecem tiradas do maravilhoso livro inconsciente de receitas pré-aquecidas para felicidade? Ultimamente tenho pensado muito em duas que se complementam de uma maneira que deixaria orgulhoso o mais verborrágico "professor" do velho e violento esporte bretão: o trabalho ocupa a cabeça de um homem e mente vazia é a oficina do diabo.
Terça é o dia que retrata em cores vibrantes essas duas afirmativas na minha atual rotina. Das 7 da manhã no Jacaré às dez da noite em Icaraí, com direito a uma longa escala em São Cristóvão. Casa, banho e cama, só por volta das onze. Embalado pelo peculiar sistema de transporte público carioca. Minha cabeça tem estado abarrotada de trabalho. Engraçado, novamente. Eu preferia que o diabo estivesse nela jogando paciência, fumando palomitas, bebericando uma taça de Periquita com pausas regulares para ler Rubem Braga, mais precisamente "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada", claro. Ele leria essa crônica sem medo de clichês. Afinal, o clichê nada mais é que o resíduo último da incapacidade humana de repintar o óbvio.
Minha mente tem sido pouco artística na terça, nesta e nas das últimas semanas. À excessão do trajeto de retorno à casa, banho e cama. Muitos já passaram pela Ponte Rio-Niterói à noite. Mas vocês já se permitiram sonhar por lá? Sem oferecer riscos ao trânsito, de preferência. Reparem nas luzes da cidade, aquelas que a região portuária carioca nos presenteia por todo o trajeto. Olhos sólidos e claros na travessia de estrelas que é a paisagem urbana noturna. Olhares que me prendem sem aprisionar em qualquer instante. Olhares. E cada estrela de tungstênio ou néon transporta o material que embeleza, entristece, enriquece olhares: vida. Correndo em minha direção como sonhos em busca de almas dispostas a repintar o óbvio. O que cada um de vocês tem vivido? Então finalmente me lembro que também sou um sonho fluindo pelas luzes urbanas da quase-madrugada para mentes dispostas a decorar seus vazios com óbvios repintados. Mente vazia é o castigo do não-criativo, que precisa de rotina para afugentar a mediocridade travestida de chifre e tridente.
Recriar o evidente é reviver o tempo em trânsito como passeio noturno urbanamente estrelado. E não há chá de boa noite no mundo que me faça perder isto. Que se vá o chá. Que fique para admirar as estrelas, prazer nunca passível de fruição solitária, quem o trouxe.
Terça é o dia que retrata em cores vibrantes essas duas afirmativas na minha atual rotina. Das 7 da manhã no Jacaré às dez da noite em Icaraí, com direito a uma longa escala em São Cristóvão. Casa, banho e cama, só por volta das onze. Embalado pelo peculiar sistema de transporte público carioca. Minha cabeça tem estado abarrotada de trabalho. Engraçado, novamente. Eu preferia que o diabo estivesse nela jogando paciência, fumando palomitas, bebericando uma taça de Periquita com pausas regulares para ler Rubem Braga, mais precisamente "Eu e Bebu na hora neutra da madrugada", claro. Ele leria essa crônica sem medo de clichês. Afinal, o clichê nada mais é que o resíduo último da incapacidade humana de repintar o óbvio.
Minha mente tem sido pouco artística na terça, nesta e nas das últimas semanas. À excessão do trajeto de retorno à casa, banho e cama. Muitos já passaram pela Ponte Rio-Niterói à noite. Mas vocês já se permitiram sonhar por lá? Sem oferecer riscos ao trânsito, de preferência. Reparem nas luzes da cidade, aquelas que a região portuária carioca nos presenteia por todo o trajeto. Olhos sólidos e claros na travessia de estrelas que é a paisagem urbana noturna. Olhares que me prendem sem aprisionar em qualquer instante. Olhares. E cada estrela de tungstênio ou néon transporta o material que embeleza, entristece, enriquece olhares: vida. Correndo em minha direção como sonhos em busca de almas dispostas a repintar o óbvio. O que cada um de vocês tem vivido? Então finalmente me lembro que também sou um sonho fluindo pelas luzes urbanas da quase-madrugada para mentes dispostas a decorar seus vazios com óbvios repintados. Mente vazia é o castigo do não-criativo, que precisa de rotina para afugentar a mediocridade travestida de chifre e tridente.
Recriar o evidente é reviver o tempo em trânsito como passeio noturno urbanamente estrelado. E não há chá de boa noite no mundo que me faça perder isto. Que se vá o chá. Que fique para admirar as estrelas, prazer nunca passível de fruição solitária, quem o trouxe.
domingo, 3 de junho de 2007
Cai o pano
Aplausos. Música de ninar para o ego humano. A rotina de todas as noites desde a estréia da peça. Será frieza o fato de eu apenas não me importar mais? Mais aplausos. Agora, o buquê entregue pela assistente de palco. Uma reverência e o sorriso. Mais uma noite brilhante, estrelada por uma constelação de gargalhadas, epifanias, emoções. Duas mãos foram pedidas em casamento esta noite. Minha atuação tem sido elogiada em diversos aspectos, pelos mais rigorosos críticos. Até Bárbara Heliodora me chamou para um drinque, acreditam?
Mas o realmente engraçado, trama brilhante da dama irônica e imprevisível que é a vida, é que jamais comentaram meu ato mais brilhante como ator: o sorriso de agradecimento. O sorriso que transmite confiança. Olhares múltiplos trespassam o sorriso com admiração, como se conseguissem sugar toda a essência de confiança e crença na superação da adversidade, na capacidade humana de construção de maravilhas surpreendentes a partir da matéria de sonhos que abundam em nosso cotidiano. Se eles soubessem como eu me odeio. A minha verdadeira arte nem de longe é a prece a Dionísio neste palco semanalmente ensaiada. Não, em hipótese alguma. Aquilo que faço realmente de belo é me odiar, com a última intensidade suportada pela alma humana. Ódio a si próprio não como qualquer arroubo adolescente de quem quer um cabelo liso, um celular novo ou o ex-ficante. Meu ódio é um eterno implorar de quem queria ser somente diferente. Qualquer pessoa diferente. Qualquer um, menos eu, apenas qualquer um diferente.
Aplausos. Dar as costas em um movimento firme, confiante. Distanciar-me do público rumo às coxias. O espelho no camarim, que de tanto me fitar com os olhos da solidão tornou-se minha alma. E neste exato momento minha alma está postada à minha frente, portando uma bela garrucha cenográfica, abençoada com pólvora e uma bala de verdade. Aplausos, mais aplausos. Não mais da platéia, mas da minha alma. Eu me esforço para chorar, mas, pelo visto, encenar uma emoção autêntica é mais fácil do que vivenciá-la. Espero que Bárbara Heliodora não se sinta muito ofendida.
Mas o realmente engraçado, trama brilhante da dama irônica e imprevisível que é a vida, é que jamais comentaram meu ato mais brilhante como ator: o sorriso de agradecimento. O sorriso que transmite confiança. Olhares múltiplos trespassam o sorriso com admiração, como se conseguissem sugar toda a essência de confiança e crença na superação da adversidade, na capacidade humana de construção de maravilhas surpreendentes a partir da matéria de sonhos que abundam em nosso cotidiano. Se eles soubessem como eu me odeio. A minha verdadeira arte nem de longe é a prece a Dionísio neste palco semanalmente ensaiada. Não, em hipótese alguma. Aquilo que faço realmente de belo é me odiar, com a última intensidade suportada pela alma humana. Ódio a si próprio não como qualquer arroubo adolescente de quem quer um cabelo liso, um celular novo ou o ex-ficante. Meu ódio é um eterno implorar de quem queria ser somente diferente. Qualquer pessoa diferente. Qualquer um, menos eu, apenas qualquer um diferente.
Aplausos. Dar as costas em um movimento firme, confiante. Distanciar-me do público rumo às coxias. O espelho no camarim, que de tanto me fitar com os olhos da solidão tornou-se minha alma. E neste exato momento minha alma está postada à minha frente, portando uma bela garrucha cenográfica, abençoada com pólvora e uma bala de verdade. Aplausos, mais aplausos. Não mais da platéia, mas da minha alma. Eu me esforço para chorar, mas, pelo visto, encenar uma emoção autêntica é mais fácil do que vivenciá-la. Espero que Bárbara Heliodora não se sinta muito ofendida.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Ipanema Summer Blues
Será que as pessoas ainda se alistam na Legião Estrangeira? Sempre nos lembraremos de janeiro de 2007 como o pior verão de todos. Culpa, em parte, de um São Pedro definitivamente paulista. Mas no fundo, toda a água que cai do céu só serve para borrar a aquarela de nossas vidas que tentamos pintar. E sabe aqueles trabalhos de jardim da infância que consistiam em jogar tinta em uma folha em branco e depois dobrá-la, para surgir algo muito próximo a uma borboleta? Foi a mesma coisa que a vida fez com minha aquarela borrada hoje, agora, em pleno janeiro de 2007.
Mas desculpem-me a falta de educação, não apresentei o cenário e os personagens antes da digressão inicial. Local: Ipanema, é claro. Culpem Tom e Vinicius, ou os garçons que lhes atendiam, pelas breguices sentimentais executadas em tão manoelcarlístico bairro. Pobre vítima pueril de nossos arroubos movidos a Wando e bebida barata. E um casamento em pleno posto 9 chuvoso é o Pelé das baboseiras do coração. Eternos culpados, Tom, Vinícius e os garçons, e eu nunca soube se eles sequer chegaram a se dar bem com a Helô, vejam só. Sobre os personagens dessa história, agora vem a parte engraçada: dois homens vestidos de noivo e a mulher da minha vida vestida de noiva, além de um monte de gente que não interessa.
Um dos homens vestidos de noivo sou eu. Estranho, não? Pela lógica casamenteira ocidental, somente poucos países mais progressistas aceitariam dois homens vestidos de noivo em um mesmo casamento. E nessa situação, a noiva seria um objeto sem sentido, a não ser que fosse uma drag-queen responsável pela animação da recepção posterior. Mas não era o caso aqui. Na verdade, eu estava invadindo um casamento alheio. E na verdade, mesmo, estava fugindo do meu próprio casamento para estar aqui, pois tinha que guardar em meus olhos a imagem da mulher da minha vida vestida com o branco nupcial. Como de se esperar, a noiva mais linda do mundo. Não me tomem por um monstro insensível, não parei de pensar em Dorinha um instante. Ela sempre esteve lá. Agora, Dorinha continua lá, postada com prováveis lágrimas barrocas em frente ao altar do Mosteiro de São Bento, embora eu não esteja ao seu lado. Mas Dorinha perdoa. Por mais que ela possa se sentir compelida a utilizar os meus bagos como matéria-prima para o buquê de sua próxima tentativa de casamento, Dorinha sempre perdoa.
Quando era mais jovem, sempre tendi a obedecer os impulsos da minha vontade por crer dogmaticamente no paralelo entre minha existência e a força inevitável da natureza. Assim, fazia o que tivesse que ser feito sem jamais levantar a hipótese de uma freada brusca por causas externas em meu caminho. Com o tempo fui percebendo, em meio a solavancos e trombadas, que vontade não constrói estradas de finais previsíveis, o que me levou a entender que sigo meus impulsos não por eles percorrerem trilha certa, mas porque é impossível fugir de quem somos. Tal verdade inegável passou a ter um efeito lorax diante de cada presente de Murphy que não podemos prever, e isso realmente nos ajuda a levar a vida. Quando, por exemplo, chegou o clone do Steaven Seagall e encostou o cano frio de sua arma em minha lombar. Ou quando da maneira com a qual ela disse sim diante da pergunta padrão de um padre para um casal de noivos. A maneira com a qual D. Pedro I disse que ficava, que Getúlio apertou o gatilho e que Collor disse que voltaria. Ou seja, a maneira pintada em cores de uma epopéia-de-final-feliz, embora não menos proféticas, pelas pessoas que as contam, para impressionar e fazer crer de forma mais eficaz.
Mas, conforme a Bílbia sabiamente deixa de alertar, o grande triunfo da mentira sobre a verdade reside no fato de que a segunda surge espontaneamente, mas a primeira envolve suor e força de vontade, e todos nós valorizamos mais aquilo que nos demanda esforço. E o engraçado foi todos esses pensamentos perderem a importância quando chegou o clone do Burt Reynolds e também pôs-se a contar, ainda que com exemplar discrição, com sua taurus quantas vértebras existiam em minha coluna. Tantos figurantes de Ploc 80's brincando de personagens de ação de vinte anos atrás em minhas costas explica-se pelo fato de ela ter escolhido entrar para um clã que faria a contraventora família Andrade parecer as primas freiras de Sandy e Júnior. Só me resta adivinhar se serei jogado das pedras do Arpoador ou do mirante do Leblon. Saco. Será que as pessoas ainda se alistam na Legião Estrangeira?
Mas desculpem-me a falta de educação, não apresentei o cenário e os personagens antes da digressão inicial. Local: Ipanema, é claro. Culpem Tom e Vinicius, ou os garçons que lhes atendiam, pelas breguices sentimentais executadas em tão manoelcarlístico bairro. Pobre vítima pueril de nossos arroubos movidos a Wando e bebida barata. E um casamento em pleno posto 9 chuvoso é o Pelé das baboseiras do coração. Eternos culpados, Tom, Vinícius e os garçons, e eu nunca soube se eles sequer chegaram a se dar bem com a Helô, vejam só. Sobre os personagens dessa história, agora vem a parte engraçada: dois homens vestidos de noivo e a mulher da minha vida vestida de noiva, além de um monte de gente que não interessa.
Um dos homens vestidos de noivo sou eu. Estranho, não? Pela lógica casamenteira ocidental, somente poucos países mais progressistas aceitariam dois homens vestidos de noivo em um mesmo casamento. E nessa situação, a noiva seria um objeto sem sentido, a não ser que fosse uma drag-queen responsável pela animação da recepção posterior. Mas não era o caso aqui. Na verdade, eu estava invadindo um casamento alheio. E na verdade, mesmo, estava fugindo do meu próprio casamento para estar aqui, pois tinha que guardar em meus olhos a imagem da mulher da minha vida vestida com o branco nupcial. Como de se esperar, a noiva mais linda do mundo. Não me tomem por um monstro insensível, não parei de pensar em Dorinha um instante. Ela sempre esteve lá. Agora, Dorinha continua lá, postada com prováveis lágrimas barrocas em frente ao altar do Mosteiro de São Bento, embora eu não esteja ao seu lado. Mas Dorinha perdoa. Por mais que ela possa se sentir compelida a utilizar os meus bagos como matéria-prima para o buquê de sua próxima tentativa de casamento, Dorinha sempre perdoa.
Quando era mais jovem, sempre tendi a obedecer os impulsos da minha vontade por crer dogmaticamente no paralelo entre minha existência e a força inevitável da natureza. Assim, fazia o que tivesse que ser feito sem jamais levantar a hipótese de uma freada brusca por causas externas em meu caminho. Com o tempo fui percebendo, em meio a solavancos e trombadas, que vontade não constrói estradas de finais previsíveis, o que me levou a entender que sigo meus impulsos não por eles percorrerem trilha certa, mas porque é impossível fugir de quem somos. Tal verdade inegável passou a ter um efeito lorax diante de cada presente de Murphy que não podemos prever, e isso realmente nos ajuda a levar a vida. Quando, por exemplo, chegou o clone do Steaven Seagall e encostou o cano frio de sua arma em minha lombar. Ou quando da maneira com a qual ela disse sim diante da pergunta padrão de um padre para um casal de noivos. A maneira com a qual D. Pedro I disse que ficava, que Getúlio apertou o gatilho e que Collor disse que voltaria. Ou seja, a maneira pintada em cores de uma epopéia-de-final-feliz, embora não menos proféticas, pelas pessoas que as contam, para impressionar e fazer crer de forma mais eficaz.
Mas, conforme a Bílbia sabiamente deixa de alertar, o grande triunfo da mentira sobre a verdade reside no fato de que a segunda surge espontaneamente, mas a primeira envolve suor e força de vontade, e todos nós valorizamos mais aquilo que nos demanda esforço. E o engraçado foi todos esses pensamentos perderem a importância quando chegou o clone do Burt Reynolds e também pôs-se a contar, ainda que com exemplar discrição, com sua taurus quantas vértebras existiam em minha coluna. Tantos figurantes de Ploc 80's brincando de personagens de ação de vinte anos atrás em minhas costas explica-se pelo fato de ela ter escolhido entrar para um clã que faria a contraventora família Andrade parecer as primas freiras de Sandy e Júnior. Só me resta adivinhar se serei jogado das pedras do Arpoador ou do mirante do Leblon. Saco. Será que as pessoas ainda se alistam na Legião Estrangeira?
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Pelo buraco da fechadura
"Será que ele vai nos contar algo de novo por aqui?"
"Eu não sei, se estou escrevendo sobre mim em terceira pessoa, é porque também estou espiando pelo buraco da fechadura."
"Ele é meio maluco, não é? Pelo menos é isso que as pessoas dizem, geralmente, que ele não é muito normal."
"Bem, eu o conheço há 25 anos, e até hoje não o vi fazendo nada que eu considere por demais louco ou excêntrico."
"Que resposta de maluco..."
"Como foi?"
"Nada. Sabe o que é? O pessoal fica preocupado. Será que este ano ele consegue passar? Será que ele arranja um apartamento que façam todos, ou pelo menos uma pessoa, parar de reclamar? Será que ele achou amargo o gosto do próprio sangue em sua boca? Por Deus, que ele não tenha achado doce... Será que ele vai dar certo? Será que ele tem medo de não dar tão certo quanto ele acha que os outros acham que ele deveria dar? Será que..."
"Desculpe interromper. Mas olhe bem para ele. Você o conhece. Ou seja, os personagens e situações presentes no que ele escreve ou faz para o Pernil cantar são estritamente ficcionais, sendo qualquer semelhança com o real apenas mera coincidência. Pelo menos é o que ele vive dizendo, embora nem eu acredite muito. Observe mais atentamente. Como um recém-nascido envolvido pela noite escura ruge impiedosamente pelo seio materno, tudo que ele anseia é o escorrer de algum conteúdo de sua cabeça por seus dedos, aliviando o peso e evitando que o baú de badulaques freudianos em cima de seu pescoço pare de se afogar no travesseiro, fazendo pouco da necessidade de respirar. Ele terá uma noite de sono, então. Não qualquer uma. Mas daquelas onde o travesseiro parece feito com as plumas das aves que viajaram por todos os mundos, os daqui e os dos poetas, e elas (as plumas, pois as aves estarão procurando outros mundos) lhe sussurarão todos os detalhes para que ele futuramente conte para seus afilhados. A cama é um abraço sincero. Sua coberta é puxada por todos os grandes amores que ele ainda conhecerá um dia."
"Mas então o que acontecerá?"
"Não sei, pois não olharei mais pelo buraco desta fechadura. Assim, não há nada a fazer além de desejar a ele sorte. Não espiarei mais, pois tenho uma vida própria para tocar. Não serei eu a contar o final dessa história."
"Eu não sei, se estou escrevendo sobre mim em terceira pessoa, é porque também estou espiando pelo buraco da fechadura."
"Ele é meio maluco, não é? Pelo menos é isso que as pessoas dizem, geralmente, que ele não é muito normal."
"Bem, eu o conheço há 25 anos, e até hoje não o vi fazendo nada que eu considere por demais louco ou excêntrico."
"Que resposta de maluco..."
"Como foi?"
"Nada. Sabe o que é? O pessoal fica preocupado. Será que este ano ele consegue passar? Será que ele arranja um apartamento que façam todos, ou pelo menos uma pessoa, parar de reclamar? Será que ele achou amargo o gosto do próprio sangue em sua boca? Por Deus, que ele não tenha achado doce... Será que ele vai dar certo? Será que ele tem medo de não dar tão certo quanto ele acha que os outros acham que ele deveria dar? Será que..."
"Desculpe interromper. Mas olhe bem para ele. Você o conhece. Ou seja, os personagens e situações presentes no que ele escreve ou faz para o Pernil cantar são estritamente ficcionais, sendo qualquer semelhança com o real apenas mera coincidência. Pelo menos é o que ele vive dizendo, embora nem eu acredite muito. Observe mais atentamente. Como um recém-nascido envolvido pela noite escura ruge impiedosamente pelo seio materno, tudo que ele anseia é o escorrer de algum conteúdo de sua cabeça por seus dedos, aliviando o peso e evitando que o baú de badulaques freudianos em cima de seu pescoço pare de se afogar no travesseiro, fazendo pouco da necessidade de respirar. Ele terá uma noite de sono, então. Não qualquer uma. Mas daquelas onde o travesseiro parece feito com as plumas das aves que viajaram por todos os mundos, os daqui e os dos poetas, e elas (as plumas, pois as aves estarão procurando outros mundos) lhe sussurarão todos os detalhes para que ele futuramente conte para seus afilhados. A cama é um abraço sincero. Sua coberta é puxada por todos os grandes amores que ele ainda conhecerá um dia."
"Mas então o que acontecerá?"
"Não sei, pois não olharei mais pelo buraco desta fechadura. Assim, não há nada a fazer além de desejar a ele sorte. Não espiarei mais, pois tenho uma vida própria para tocar. Não serei eu a contar o final dessa história."
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