domingo, 20 de janeiro de 2008
Iniciando os trabalhos do ano
E o domingo cai do céu em gotas de um pré-carnaval sem rosto, sem gosto. Não, isso não é um desabafo, nem pedido de socorro, nem palavras que poderiam dançar ao sabor de uma harmonia em tom menor. Sem prantos, mas também sem brados. Sem reclamação. Talvez isso seja apenas uma quase nota afirmativa, passional e verborrágica, italianíssima como o sangue em minhas veias. Mas eu decidi me reinventar. E o domingo que goteja talvez ofereça a palheta de cores e tonalidades novas, que jamais poderia encontrar em meus próprios caminhos internos. Sim, aquarela que formará o sorriso que tanto gosto, e o plano de fundo será o meu próprio rosto. Aquarela, que venha a vida me ensinar cores desconhecidas para eu desfrutar novos e meus sorrisos.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Blog novo: dêem boas vindas ao plurimãos!
Bem, ainda não sei se alguém frequenta este obscuro espaço. Mas caso o faça, aproveite e dê uma passada no blog coletivo que estou gerenciando com meu grande (e furador de chopes anuais) amigo Luis Antônio (o grande autor de nossa geração blogueira, aguardem e comprovem). A estratégia é simples: qualquer texto poderá ser publicado, de qualquer autoria (à excessão de Edmundo e Romário. E do Beto também), desde que seja uma criação coletiva.
Confiram: plurimaos.blogspot.com
E comentem, por favor!
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domingo, 2 de dezembro de 2007
Ziraldeando
O azul ensolarado e vespertino emoldurava magnificamente sua fronte de menino destemido prestes a tomar a fortificação adversária. Não seria um movimento fácil, pois as caixas velhas e as árvores frondosas de primavera escondiam surpresas perigosas, adversários poderosos. E os pensamentos, estes sim os autênticos eficazes no tomar sorrateiro, se apropriaram de sua mente com a fúria de um rio represado por eras. Excitação, aquela palavra que Tia Terezinha mandara buscar no dicionário, é isso? Quer dizer que estava sentindo sua lição de casa pulsando viva na bomba irrequieta, dentro do peito, que papai diz ser o coração? Pobre papai, assertiu em silêncio, cardiologista há anos e mal sabia que tal órgão se alojava nas partes baixas, o único local que dói quando uma menina chuta, e foi ele mesmo quem disse que saberei onde fica essa parte do corpo no exato momento em que eu tomar o primeiro chute de uma menina. Seu pai ainda havia muito que aprender sobre coração e meninas, mas um quartel general inimigo precisava ser subjugado.
E as retinas das testemunhas daquela epopéica invasão capturaram cenas de coragem inenarrável, lembranças que forjarão na criança o caráter do homem que vive e não se deixa viver. E como intercalava passos magistrais por entre caixas abandonadas e galhos ressecados. Audacioso, sabia-se simultaneamente bailarino e maestro. Regia os impropérios desafiadores que jorravam de sua língua com o objeto que a sociedade convencionou denominar vareta. Mas os sábios, aqueles que se permitem conservar a faceta infantil como capitão honorário da nau olhar, sabiam ser a batuta em questão uma excalibur de autenticidade alardeada pelo próprio Arthur, o porteiro do turno da manhã que uma vez lhe contara uma lenda sobre um rei bretão adormecido em uma ilha de fadas.
Calma e silêncio. Os artifícios primordiais de um herói vitorioso. Brados cortando o céu, tremores de terra sob passadas pesadas e aceleradas de um par de all-star surrado. A alma e a lâmina do impiedoso sedento pela glória que catapultará seu nome para cantigas de chora-bananeira-chora e lendas de pátio de escola. E explodiu como uma matilha selvagem, nada se atreveria a se interpor em seu caminho. A poeira era levantada como uma imensa ola saudando o touro altivo e imbatível que era. Ou pelo menos foi, até ter sua trajetória vigorosamente interrompida pelo ser mais traiçoeiro, imprevisível e mortal. Venenoso, asqueroso, pesaroso, desastroso e ainda assim temeroso. Uma, sim, isso mesmo, uma menina! Daquelas bem embonecadas, exatamente onde deveria estar o antro inimigo que ele pretendia esmigalhar!
Parecia toda de cachos e porcelana viva, tomando seu chá de mentirinha sentada, e sua figura, bem como tudo que a adornava, destoava do jardim cujos joelhos das árvores estavam empapuçados de lama e terra batida. Tomava seu desjejum candidamente, e a elegância de sua brincadeira revelava com exatidão o quão sério e real é a capacidade de uma criança transmutar o mundo. Com a xícara a meio-caminho dos lábios, levantou o olho direito, apenas, e fuzilou o estatelado herói com um verde forte que em nada lembrava águas oceânicas no verão:
“O que você pensa que está fazendo?”
“Eu?! Veja bem, em tomadas de forte são tomados fortes, e não chás, e a senhora trate de evacuar esse séqüito inútil de pelúcia, ou de trocá-lo por comandos e thundercats capazes de realizar trabalhos de homem que é o que a senhora precisará para...
“Cale a boca. Você está imundo. Lave-se naquele riacho e tome seu lugar à mesa ao lado do Sr. Ternura Marrom. Creio que ele direcionará sua impulsividade bélica para uma boa educação e postura.”
“Não vou deixar minha patente rebaixada a um urso com olhos de botão que não agüentaria...”
“Agora. Vou separar sua refeição para servi-lo pessoalmente. Agora, sem um mas.”
Somente um demônio fundiria um sorriso tão estrategicamente encantador e um olhar que é a morada de uma frieza capaz de fazer gritar de pavor a mais renitente alma. O resultado dessa equação foi a obediência indiscutível do garboso soldado. Porém, assim que estivesse limpo e penteado, mostraria a quem cabia dar as cartas.
E retornou para a retomada de seu orgulho, mas seu fôlego foi estrangulado à meia lufada de escapar da garganta. Aquilo que seus olhos registravam, sua alma não decodificava. Na pequena cadeira de plástico se sentava placidamente o moleque ruivo da rua de cima, o rufião cujo quartel general pretendia tomar. Esparramava-se bem ao lado do senhor Ternura Marrom, que consentia com aquele despautério com uma calma surpreendente em seus olhos de botão. Naquele momento, aprendeu sobre decepção. Naquele momento, aprendeu sobre traição. Mas principalmente, percebeu que o coração não estava nas partes baixas, e que na verdade era aquela bomba em seu peito que de quando em quando explodia em direções diversas, como um corcel selvagem. Sabia que sua descoberta revolucionaria para todo sempre a ciência da anatomia humana, e que urgia sentar com seu pai e registrar cada detalhe para a posteridade. Mas não agora. O garoto ainda possuía muitos fortes inimigos para tomar, alguns castelos de sonhos medievais, com direito a dragões e avatares do second life, reflexo do imaginário infantil pós-moderno. Sim, ainda haveria muito tempo para outras descobertas anatômicas e fisiológicas inevitáveis. Mas este momento não é o presente, por enquanto tomado por sonhos vividos como reais e pela realidade alimentada pelo frescor da vida como uma eterna descoberta. E isso, meus caros, é uma das maiores belezas da nossa existência como homens.
E as retinas das testemunhas daquela epopéica invasão capturaram cenas de coragem inenarrável, lembranças que forjarão na criança o caráter do homem que vive e não se deixa viver. E como intercalava passos magistrais por entre caixas abandonadas e galhos ressecados. Audacioso, sabia-se simultaneamente bailarino e maestro. Regia os impropérios desafiadores que jorravam de sua língua com o objeto que a sociedade convencionou denominar vareta. Mas os sábios, aqueles que se permitem conservar a faceta infantil como capitão honorário da nau olhar, sabiam ser a batuta em questão uma excalibur de autenticidade alardeada pelo próprio Arthur, o porteiro do turno da manhã que uma vez lhe contara uma lenda sobre um rei bretão adormecido em uma ilha de fadas.
Calma e silêncio. Os artifícios primordiais de um herói vitorioso. Brados cortando o céu, tremores de terra sob passadas pesadas e aceleradas de um par de all-star surrado. A alma e a lâmina do impiedoso sedento pela glória que catapultará seu nome para cantigas de chora-bananeira-chora e lendas de pátio de escola. E explodiu como uma matilha selvagem, nada se atreveria a se interpor em seu caminho. A poeira era levantada como uma imensa ola saudando o touro altivo e imbatível que era. Ou pelo menos foi, até ter sua trajetória vigorosamente interrompida pelo ser mais traiçoeiro, imprevisível e mortal. Venenoso, asqueroso, pesaroso, desastroso e ainda assim temeroso. Uma, sim, isso mesmo, uma menina! Daquelas bem embonecadas, exatamente onde deveria estar o antro inimigo que ele pretendia esmigalhar!
Parecia toda de cachos e porcelana viva, tomando seu chá de mentirinha sentada, e sua figura, bem como tudo que a adornava, destoava do jardim cujos joelhos das árvores estavam empapuçados de lama e terra batida. Tomava seu desjejum candidamente, e a elegância de sua brincadeira revelava com exatidão o quão sério e real é a capacidade de uma criança transmutar o mundo. Com a xícara a meio-caminho dos lábios, levantou o olho direito, apenas, e fuzilou o estatelado herói com um verde forte que em nada lembrava águas oceânicas no verão:
“O que você pensa que está fazendo?”
“Eu?! Veja bem, em tomadas de forte são tomados fortes, e não chás, e a senhora trate de evacuar esse séqüito inútil de pelúcia, ou de trocá-lo por comandos e thundercats capazes de realizar trabalhos de homem que é o que a senhora precisará para...
“Cale a boca. Você está imundo. Lave-se naquele riacho e tome seu lugar à mesa ao lado do Sr. Ternura Marrom. Creio que ele direcionará sua impulsividade bélica para uma boa educação e postura.”
“Não vou deixar minha patente rebaixada a um urso com olhos de botão que não agüentaria...”
“Agora. Vou separar sua refeição para servi-lo pessoalmente. Agora, sem um mas.”
Somente um demônio fundiria um sorriso tão estrategicamente encantador e um olhar que é a morada de uma frieza capaz de fazer gritar de pavor a mais renitente alma. O resultado dessa equação foi a obediência indiscutível do garboso soldado. Porém, assim que estivesse limpo e penteado, mostraria a quem cabia dar as cartas.
E retornou para a retomada de seu orgulho, mas seu fôlego foi estrangulado à meia lufada de escapar da garganta. Aquilo que seus olhos registravam, sua alma não decodificava. Na pequena cadeira de plástico se sentava placidamente o moleque ruivo da rua de cima, o rufião cujo quartel general pretendia tomar. Esparramava-se bem ao lado do senhor Ternura Marrom, que consentia com aquele despautério com uma calma surpreendente em seus olhos de botão. Naquele momento, aprendeu sobre decepção. Naquele momento, aprendeu sobre traição. Mas principalmente, percebeu que o coração não estava nas partes baixas, e que na verdade era aquela bomba em seu peito que de quando em quando explodia em direções diversas, como um corcel selvagem. Sabia que sua descoberta revolucionaria para todo sempre a ciência da anatomia humana, e que urgia sentar com seu pai e registrar cada detalhe para a posteridade. Mas não agora. O garoto ainda possuía muitos fortes inimigos para tomar, alguns castelos de sonhos medievais, com direito a dragões e avatares do second life, reflexo do imaginário infantil pós-moderno. Sim, ainda haveria muito tempo para outras descobertas anatômicas e fisiológicas inevitáveis. Mas este momento não é o presente, por enquanto tomado por sonhos vividos como reais e pela realidade alimentada pelo frescor da vida como uma eterna descoberta. E isso, meus caros, é uma das maiores belezas da nossa existência como homens.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Da gentil arte de engatinhar para fora das sombras
Apenas para cortar os péssimos e carregados fluidos da confissão logo aqui embaixo. Sabe como é, coisa de libriano com humor de montanha russa se recompondo paulatina e eficazmente.
sábado, 10 de novembro de 2007
Carpe dying
Chegou em casa lá pelas tantas e se sentiu Deus pela décima nona vez naquela madrugada. Porém, gingava como um autêntico exu, exalando fumaça de charuto barato e o odor da mais vagabunda cana, o incenso e mirra que dois dos reis magos dariam ao autêntico Macunaíma que ele era. Sim, apenas dois, pois o terceiro tinha absoluta certeza de que este rapaz não valia a sola de sapato que fosse, quanto mais qualquer grama de ouro. Mesmo assim, a excêntrica criatura adentrou a porta da sala e dançou um apaixonado tango com cada móvel que cruzou seu caminho.
As luzes de cada cômodo estavam todas queimadas, desde que arrebentada estava sua alma pela solidão. Não sei se vocês têm conhecimento, mas esta não é um sentimento, e sim um espectro trajando capa e capuz preto, além de portar uma foice de cabo longo, torto e enegrecido pelo sangue alheio. Ele não era mais uma criança, sabia disso tudo, aliás, sempre soubera tudo que precisava. É claro que isso torna seu caminho mais tortuoso, pois mesmo possuindo o conhecimento do necessário, o ignora solenemente, em nome dos sonhos que tanto tardam a se realizar. E essa foi sua derradeira imagem na hora neutra desta madrugada: um verdadeiro pé de valsa que não deu sossego a nenhum objeto de cama, mesa e banho até chegar ao seu caixão forrado com os lençóis de duas semanas atrás.
O dia seguinte foi mais uma nota preparatória do desfecho em tom menor que tanto se alongava. Escreveu três cartas para três diferentes e queridos amigos. Três pequenos fragmentos de um ser despedaçado, como uma tentativa de recompor aquilo que um dia já chamou de si próprio. Três pulsantes cortes de um coração errante e errado, espatifado na queda que até então tomara por ascensão. Cada uma de suas furtivas fraturas vivendo o seu de repente não mais que de repente e lamentando a ligação intransponível com seu poeta favorito.
Tudo estava escuro, tudo estava confuso. O respirar de cada dia passou a ser feito em uma densa neblina, na verdade um véu resultante da água e do sal que se condensavam em seus olhos. Tantos hábitos, tanta surpresa. Tanta espontaneidade, tanta urgência. Tanta ânsia. Elementos que se degladiavam na bagagem de ilusões que ele descobriu que carregara só, tão somente só. E depois dessa confusão toda que se armou, ele pode vir a ser uma nota obituária, uma manchete heróica. Um presidente da república, um gerente da boca. Um pastor evangélico, um apontador de bicho. Um suicida, um santo. Isso fica a critério de cada um de vocês, pois ele mesmo acabou de descobrir que não controla para onde será direcionado o turbilhão de emoções do próximo. Assim como ninguém fará com o dele. Muito menos eu.
As luzes de cada cômodo estavam todas queimadas, desde que arrebentada estava sua alma pela solidão. Não sei se vocês têm conhecimento, mas esta não é um sentimento, e sim um espectro trajando capa e capuz preto, além de portar uma foice de cabo longo, torto e enegrecido pelo sangue alheio. Ele não era mais uma criança, sabia disso tudo, aliás, sempre soubera tudo que precisava. É claro que isso torna seu caminho mais tortuoso, pois mesmo possuindo o conhecimento do necessário, o ignora solenemente, em nome dos sonhos que tanto tardam a se realizar. E essa foi sua derradeira imagem na hora neutra desta madrugada: um verdadeiro pé de valsa que não deu sossego a nenhum objeto de cama, mesa e banho até chegar ao seu caixão forrado com os lençóis de duas semanas atrás.
O dia seguinte foi mais uma nota preparatória do desfecho em tom menor que tanto se alongava. Escreveu três cartas para três diferentes e queridos amigos. Três pequenos fragmentos de um ser despedaçado, como uma tentativa de recompor aquilo que um dia já chamou de si próprio. Três pulsantes cortes de um coração errante e errado, espatifado na queda que até então tomara por ascensão. Cada uma de suas furtivas fraturas vivendo o seu de repente não mais que de repente e lamentando a ligação intransponível com seu poeta favorito.
Tudo estava escuro, tudo estava confuso. O respirar de cada dia passou a ser feito em uma densa neblina, na verdade um véu resultante da água e do sal que se condensavam em seus olhos. Tantos hábitos, tanta surpresa. Tanta espontaneidade, tanta urgência. Tanta ânsia. Elementos que se degladiavam na bagagem de ilusões que ele descobriu que carregara só, tão somente só. E depois dessa confusão toda que se armou, ele pode vir a ser uma nota obituária, uma manchete heróica. Um presidente da república, um gerente da boca. Um pastor evangélico, um apontador de bicho. Um suicida, um santo. Isso fica a critério de cada um de vocês, pois ele mesmo acabou de descobrir que não controla para onde será direcionado o turbilhão de emoções do próximo. Assim como ninguém fará com o dele. Muito menos eu.
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Duas almas em dois momentos pessoais
Observou-a à distância, pela vitrine da loja. É claro que chovia, seria uma incoerência se São Pedro não despejasse sobre a calçada de pedras portuguesas sua insatisfação pela existência daquela distância entre estes dois, fruto de teimosia travestida de maturidade. Observou-a mais um pouco, como quem corta os pulsos lentamente, e pensou que a maior dor de um homem é amar a quem não se pode ter. Permaneceu do lado de fora, estático, como uma imagem secundária, um espectro tendendo ao desaparecimento. Logo ele, que já tinha desempenhado um papel tão central na vida dela, agora não passava de uma presença etérea. Sombra, distância e esquecimento. Paradas de um cortejo fúnebre rumo à solidão que ele nunca mais imaginara habitar novamente. Pelo menos não causada por ela. E seu coração cansado já não tinha mais forças para bombear sangue para o resto de um corpo condenado à inércia de uma tarde chuvosa de novembro.
Observou-o à distância, de rabo de olho, assim que ele se postou na calçada próxima à vitrine. Não conteve o riso, pois só ele mesmo acharia que não seria notado, assim, uma estátua cujo céu se encarregava de colocar lágrimas de chuva em sua face. Ela sabia que ele a devia estar achando linda, mesmo com os cabelos negros e lisos alinhados ao rosto molhado pela chuva, e com aquela capa velha que se revelara totalmente inútil na prevenção a resfriados futuros. Só ele mesmo para pensar uma sandice dessas. Pelo visto, ainda teria muito a lhe ensinar sobre seu jeito todo especial, que ele mesmo vive a repetir que tanto lhe encanta. Ela gostaria de lhe dizer qual seria o fim dessa história, mas não tinha todas as respostas, nem todas as certezas, apenas todos os seus impulsos. E estes sempre remetiam a ele no final, seja via pensamento, seja via toques de lábio e pele. E esse homem tão bobo e tão menino não conseguia compreender essa diferente maneira de gostar, e por isso estava se arriscando a uma tuberculose tão à toa. Apenas para formar em sua mente uma cena de despedida digna de um Campanella, só tida como certa pelo seu ego tão dramático. Deus, que alma teatral! Não saberemos se ele gostará do presente que ela acabou de pedir para embrulhar, nem se ela se tornará menos confusa, e ele menos teatral. Mas, certamente, será adorável acompanhar de longe cada passo dessas fascinantes almas, torcendo para que desistam dessa tolice de magoar um ao outro.
Observou-o à distância, de rabo de olho, assim que ele se postou na calçada próxima à vitrine. Não conteve o riso, pois só ele mesmo acharia que não seria notado, assim, uma estátua cujo céu se encarregava de colocar lágrimas de chuva em sua face. Ela sabia que ele a devia estar achando linda, mesmo com os cabelos negros e lisos alinhados ao rosto molhado pela chuva, e com aquela capa velha que se revelara totalmente inútil na prevenção a resfriados futuros. Só ele mesmo para pensar uma sandice dessas. Pelo visto, ainda teria muito a lhe ensinar sobre seu jeito todo especial, que ele mesmo vive a repetir que tanto lhe encanta. Ela gostaria de lhe dizer qual seria o fim dessa história, mas não tinha todas as respostas, nem todas as certezas, apenas todos os seus impulsos. E estes sempre remetiam a ele no final, seja via pensamento, seja via toques de lábio e pele. E esse homem tão bobo e tão menino não conseguia compreender essa diferente maneira de gostar, e por isso estava se arriscando a uma tuberculose tão à toa. Apenas para formar em sua mente uma cena de despedida digna de um Campanella, só tida como certa pelo seu ego tão dramático. Deus, que alma teatral! Não saberemos se ele gostará do presente que ela acabou de pedir para embrulhar, nem se ela se tornará menos confusa, e ele menos teatral. Mas, certamente, será adorável acompanhar de longe cada passo dessas fascinantes almas, torcendo para que desistam dessa tolice de magoar um ao outro.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Sempre chove no dia 2
Preparem o guarda-chuva, meninos e meninas. Em tempos bíblicos, construíam-se barcas para a fauna selvagem. Em tempos cariocas, Noé espreita postes vendendo guarda-chuvas de quinta por duas de cinco da moeda corrente, enquanto enrabicha olhares de preocupação para a fauna selvagem que faz o rapa. Preparem o guarda-chuva, senhoras e senhores, pois nestes tempos caiu como um raio um bobo sem corte, sujando de essência libriana o asfalto de Botafogo em pleno dia de anjo da guarda, vejam só. Em feriado de guardiões querubins e serafins, nascem os deslocados de alma. Assim, sem certificado de garantia e discernimento. Assim, só com uma mania muito grande de sentir o tempo inteiro, sobre e apesar de tudo.
Preparem o guarda-chuva, rufiões e meretrizes, a meia-noite será de festa com sorrisos de tragédia, e suas ânsias farão uma procissão com longos de gala à base das estrelas que cairão na terra fugindo do pé d’água furioso que está para descer.
Prepare o guarda-chuva, meu amor de olhos verdes, pois quero ver-te em sorrisos que me apaixonam e esquecer nos teus braços que é dia de anjo da guarda, onde o sonhado mais estranho pode espatifar-se em asfaltos de descida em qualquer Humaitá-Botafogo, e sem nem ter idade para beber no Plebeu.
Preparem o guarda-chuva do senhor de olhos azuis e da senhora que declama incessantes receitas em verso, eles mereciam coisa melhor, mas há anos tem que se contentar com aquilo que choveu para eles.
Preparem o guarda-chuva, pois as estrelas convivas mergulham em rajadas d’água, como festa de criança em que a mãe lua, gorda e elegantemente trajada, deixa-se para trás rogando por juízo e pelo garçon cujos benditos docinhos ele já não traz.
Preparem, coloquem nas bolsas e mochilas, importem, mandem fabricar, mas olhem pelos seus guarda-chuvas, pois o tempo começou a virar, e a meia-noite promete. Promessa de chuva lavando a solidão.
Preparem o guarda-chuva, rufiões e meretrizes, a meia-noite será de festa com sorrisos de tragédia, e suas ânsias farão uma procissão com longos de gala à base das estrelas que cairão na terra fugindo do pé d’água furioso que está para descer.
Prepare o guarda-chuva, meu amor de olhos verdes, pois quero ver-te em sorrisos que me apaixonam e esquecer nos teus braços que é dia de anjo da guarda, onde o sonhado mais estranho pode espatifar-se em asfaltos de descida em qualquer Humaitá-Botafogo, e sem nem ter idade para beber no Plebeu.
Preparem o guarda-chuva do senhor de olhos azuis e da senhora que declama incessantes receitas em verso, eles mereciam coisa melhor, mas há anos tem que se contentar com aquilo que choveu para eles.
Preparem o guarda-chuva, pois as estrelas convivas mergulham em rajadas d’água, como festa de criança em que a mãe lua, gorda e elegantemente trajada, deixa-se para trás rogando por juízo e pelo garçon cujos benditos docinhos ele já não traz.
Preparem, coloquem nas bolsas e mochilas, importem, mandem fabricar, mas olhem pelos seus guarda-chuvas, pois o tempo começou a virar, e a meia-noite promete. Promessa de chuva lavando a solidão.
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