sábado, 8 de setembro de 2007
Em homenagem a quem teve que passar pela Praia de Botafogo no dia 7 de setembro de 2007
Deus é amor mas não é guarda de trânsito!!!!
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Crônicas Ferdinandas
Bela e triste história de meu nobilíssimo colaborador Ferdinando. Não desistam, meus e outros caros, a vida nos surpreende de forma bela em qualquer esquina em que pisamos (como vc me mostrou, minha linda ;) )
Você chegou inesperadamente. Sua beleza me conquistou desde o primeiro dia no escritório. Corpo escultural, sorriso encantador, olhar penetrante. Claro que não me tornei um admirador solitário. Você era desejada por todos os colegas de trabalho. Não me importava. Eu tinha pressa em ir trabalhar, só para passar o dia perto de você. Trabalhar ao seu lado... Eu me achava o homem mais feliz do mundo.
Depois você ficou sabendo do meu estado emocional naquela época. Tinha sido abandonado pela minha ex-noiva, a única mulher que até então eu realmente amara. Jurei que não me apaixonaria por mais ninguém, até te conhecer. Descobri de novo a paixão, que depois de um tempo tive a certeza de ser amor. Estava amando novamente. Minha tristeza virou alegria, o que parecia impossível – amar – acontecia de novo. Eu precisava chegar em você, investir neste amor. Busquei sua amizade, você aceitou. Almoços, lanches, conversas, cochichos nas reuniões. Junto de você, eu me sentia no céu, iluminado pela minha deusa.
Dizem que todo apaixonado deve ter em mente que é um erro pretender a amizade da mulher quando o que se quer não é ser amigo dela. Foi aí que errei. A amizade cresceu tanto que o momento de assumir o meu amor era eternamente adiado. Esperei você me falar do seu namorado de fora da empresa para eu pensar se valia a pena me declarar para você. É claro que valia, mas me corroí de ciúmes por causa disso. Imaginava você junto dele, indo ao cinema, passeando no shopping, o beijando na boca, o abraçando, transando com ele. Tinha medo de você me comparar com ele. Isso diminuiu minha audácia de tentar transformar a amizade em amor.
Um dia, porém, tive a audácia. Eu me declarei, disse para você tudo que estava entalado há meses. Pouco me importei se você estava comprometida ou não. A recompensa pela minha coragem superou todos os meus medos. Nós ficamos. Você me beijou. Nem pensei em sexo, não precisava. Eu queria o seu amor, sua boca colada à minha, sua mão me acariciando, você sorrindo a cada vez que eu dizia: “te amo”. Voltei para casa cantando o início de uma nova relação, que nunca começou. No dia seguinte, sua indiferença era aterradora. Fiquei indignado. Chamei você para conversar. Você disse que seu namoro continuava de pé, que “ontem foi um momento de fraqueza”. “Desculpe, mas se você é meu amigo, deve entender as minhas razões”, foi sua sentença final. Pronto, eu era seu amigo. Fui ao céu, desci direto para o inferno.
Sou uma pessoa civilizada, você sabe disso. Mantive nossa amizade, não te destratei por causa da minha frustração. Mas não deixei de amá-la, de pensar em você todas as noites, de lembrar diariamente do gosto do nosso beijo, de morrer de vontade de voltar no tempo. Aí, você começou a flertar com ele. Justo ele, o meu melhor amigo. Vocês davam sinais de que não estavam apenas na paquera. Percebia pelas suas conversas que vocês se falavam sempre pelo telefone. Eu ligava para sua casa e não te encontrava lá, ligava para seu celular e você não atendia. Vocês se entreolhavam sorrindo no escritório, iam juntos para o corredor, almoçavam juntos, saíam em horários diferentes para despistar... Tive, na dúvida, a certeza de que vocês estavam saindo.
O dia em que o pouco de incerteza acabou foi na festa de fim de ano da empresa. Você chegou linda, junto dele. Sua felicidade estampada no rosto, a onipresença dele ao seu lado, tudo em você parecia uma provocação para mim. Tentei minha última cartada. Chamei você para dançar. Você aceitou. Eu te disse que não parava de pensar em você, que continuava a te amar. Você respondeu que estava em outra. Perguntei com quem. Você não respondeu. Ele te puxou para dançar. Vocês nem olharam para minha cara. Fui até a varanda para observá-los. Vocês se beijaram apaixonadamente. Meus olhos, fixos em vocês, estavam marejados, raivosos, frustrados, ciumentos. Eu me escondi atrás de uma árvore na calçada. Vi vocês saírem juntos. Para onde? Eu sabia para onde. Fazer o que? Eu sabia o que. Meu mundo caiu. A mulher que amo. Meu melhor amigo. Peguei um táxi e fui para casa chorar em cima do confidente dos amantes não-correspondidos: a cama de solteiro.
Caí em depressão. Pedi uma semana de licença do trabalho. Não conseguia comer, beber, tomar banho. Depois da licença, tive que voltar. Claro, vocês não namoravam dentro do escritório. Mas era só entrar no elevador que começavam. Beijos, declarações mútuas, olhares que brilhavam ao se cruzarem, tudo na minha cara. Meu rosto escondia minha alma. Sorria para não chorar e passar vergonha por causa do meu ciúme. Sorria com os olhos encharcados de lágrimas de dor.
Até o dia em que vocês convidaram todo mundo no escritório para o noivado. Era demais. Convidaram até a mim. Não, não conseguiria. Demito-me ou cometo suicídio, pensei. Por muito pouco não dei fim à minha própria vida. Só não o fiz porque já não achava que você merecia tanto. Mas eu não iria agüentar nem mais um minuto na sua presença, noiva, apaixonada (como disse) e prestes a se casar com outro homem. Eu me demiti, jurei nunca mais vê-la, nem a ele. Chorei muito, de novo, por causa de você, cadáver do meu coração, que achei que nunca conseguiria enterrar.
Passou um tempo até eu conseguir outro emprego. Você se casou com ele, disseram que a cerimônia foi linda, você estava felicíssima, vocês se beijaram tão apaixonadamente na frente do padre que ele até ficou vermelho de vergonha. Não tive como não imaginar. A lua de mel de vocês. Outro homem possuindo o corpo que tanto desejei ser meu, para sempre. Para me vingar – vingança tola, como são todas as vinganças –, mergulhei no sexo. Paguei todas as prostitutas que pude, consumi todas elas. Também paquerei, fiquei, até levei algumas mulheres para a cama. Fiz a minha purgação. Uma delas gostou de mim, começamos a namorar.
O tempo passou. Trabalhei, noivei. Hoje, abro minha caixa de entrada e tem um e-mail seu. Pensei no que você ia querer de mim. O livro que você me emprestou e nunca devolvi? Convidar para o seu aniversário de casamento? Anunciar o nascimento de seu primeiro filho? Você já tinha me feito sofrer demais com dúvidas. Abri para ver o que era. Eram lamentações. Ele foi carinhoso só no começo. Depois, se revelou um machista, grosso, preguiçoso, mal-educado. Suportou isso enquanto pôde, até que ele começou a bater em você. Diz que agüentou alguns meses. Em nome do amor, decidiu esperar que ele mudasse. Não mudou. Você voltou para a casa dos pais, pediu o divórcio, o caso está na Justiça. Diz que agora está arrependida do que fez comigo. Que não sabe como desperdiçou tanto amor. Que se pudesse voltar no tempo jamais teria me dito “não”. Que não mandava em seu coração, que na época só pensava nele, só queria saber dele, “alto, bonito, inteligente, divertido, forte...” Você quer se encontrar comigo. Pede reconciliação.
Você não tem noção do que fez comigo. Melhor seria se você nunca tivesse me beijado. Você não tem culpa de eu ter me apaixonado por você nem era obrigada a corresponder, mas você me provocou. Você me deu falsa esperança. Você deixou que eu mergulhasse no oceano da ilusão. Você transformou meu melhor amigo em meu maior rival. Por sua causa, mudei de serviço. Agora, depois de tanto esforço para reconstruir minha vida, quando achava que você já era página virada, você aparece. E a coerência com suas escolhas? Você irá me responder: no coração não existe lógica. Eu sei. Se eu fosse lógico, não teria me apaixonado nunca por você. Posso até estar errado, mas é o que diz meu coração. E no meu coração eu também não mando.
Você chegou inesperadamente. Sua beleza me conquistou desde o primeiro dia no escritório. Corpo escultural, sorriso encantador, olhar penetrante. Claro que não me tornei um admirador solitário. Você era desejada por todos os colegas de trabalho. Não me importava. Eu tinha pressa em ir trabalhar, só para passar o dia perto de você. Trabalhar ao seu lado... Eu me achava o homem mais feliz do mundo.
Depois você ficou sabendo do meu estado emocional naquela época. Tinha sido abandonado pela minha ex-noiva, a única mulher que até então eu realmente amara. Jurei que não me apaixonaria por mais ninguém, até te conhecer. Descobri de novo a paixão, que depois de um tempo tive a certeza de ser amor. Estava amando novamente. Minha tristeza virou alegria, o que parecia impossível – amar – acontecia de novo. Eu precisava chegar em você, investir neste amor. Busquei sua amizade, você aceitou. Almoços, lanches, conversas, cochichos nas reuniões. Junto de você, eu me sentia no céu, iluminado pela minha deusa.
Dizem que todo apaixonado deve ter em mente que é um erro pretender a amizade da mulher quando o que se quer não é ser amigo dela. Foi aí que errei. A amizade cresceu tanto que o momento de assumir o meu amor era eternamente adiado. Esperei você me falar do seu namorado de fora da empresa para eu pensar se valia a pena me declarar para você. É claro que valia, mas me corroí de ciúmes por causa disso. Imaginava você junto dele, indo ao cinema, passeando no shopping, o beijando na boca, o abraçando, transando com ele. Tinha medo de você me comparar com ele. Isso diminuiu minha audácia de tentar transformar a amizade em amor.
Um dia, porém, tive a audácia. Eu me declarei, disse para você tudo que estava entalado há meses. Pouco me importei se você estava comprometida ou não. A recompensa pela minha coragem superou todos os meus medos. Nós ficamos. Você me beijou. Nem pensei em sexo, não precisava. Eu queria o seu amor, sua boca colada à minha, sua mão me acariciando, você sorrindo a cada vez que eu dizia: “te amo”. Voltei para casa cantando o início de uma nova relação, que nunca começou. No dia seguinte, sua indiferença era aterradora. Fiquei indignado. Chamei você para conversar. Você disse que seu namoro continuava de pé, que “ontem foi um momento de fraqueza”. “Desculpe, mas se você é meu amigo, deve entender as minhas razões”, foi sua sentença final. Pronto, eu era seu amigo. Fui ao céu, desci direto para o inferno.
Sou uma pessoa civilizada, você sabe disso. Mantive nossa amizade, não te destratei por causa da minha frustração. Mas não deixei de amá-la, de pensar em você todas as noites, de lembrar diariamente do gosto do nosso beijo, de morrer de vontade de voltar no tempo. Aí, você começou a flertar com ele. Justo ele, o meu melhor amigo. Vocês davam sinais de que não estavam apenas na paquera. Percebia pelas suas conversas que vocês se falavam sempre pelo telefone. Eu ligava para sua casa e não te encontrava lá, ligava para seu celular e você não atendia. Vocês se entreolhavam sorrindo no escritório, iam juntos para o corredor, almoçavam juntos, saíam em horários diferentes para despistar... Tive, na dúvida, a certeza de que vocês estavam saindo.
O dia em que o pouco de incerteza acabou foi na festa de fim de ano da empresa. Você chegou linda, junto dele. Sua felicidade estampada no rosto, a onipresença dele ao seu lado, tudo em você parecia uma provocação para mim. Tentei minha última cartada. Chamei você para dançar. Você aceitou. Eu te disse que não parava de pensar em você, que continuava a te amar. Você respondeu que estava em outra. Perguntei com quem. Você não respondeu. Ele te puxou para dançar. Vocês nem olharam para minha cara. Fui até a varanda para observá-los. Vocês se beijaram apaixonadamente. Meus olhos, fixos em vocês, estavam marejados, raivosos, frustrados, ciumentos. Eu me escondi atrás de uma árvore na calçada. Vi vocês saírem juntos. Para onde? Eu sabia para onde. Fazer o que? Eu sabia o que. Meu mundo caiu. A mulher que amo. Meu melhor amigo. Peguei um táxi e fui para casa chorar em cima do confidente dos amantes não-correspondidos: a cama de solteiro.
Caí em depressão. Pedi uma semana de licença do trabalho. Não conseguia comer, beber, tomar banho. Depois da licença, tive que voltar. Claro, vocês não namoravam dentro do escritório. Mas era só entrar no elevador que começavam. Beijos, declarações mútuas, olhares que brilhavam ao se cruzarem, tudo na minha cara. Meu rosto escondia minha alma. Sorria para não chorar e passar vergonha por causa do meu ciúme. Sorria com os olhos encharcados de lágrimas de dor.
Até o dia em que vocês convidaram todo mundo no escritório para o noivado. Era demais. Convidaram até a mim. Não, não conseguiria. Demito-me ou cometo suicídio, pensei. Por muito pouco não dei fim à minha própria vida. Só não o fiz porque já não achava que você merecia tanto. Mas eu não iria agüentar nem mais um minuto na sua presença, noiva, apaixonada (como disse) e prestes a se casar com outro homem. Eu me demiti, jurei nunca mais vê-la, nem a ele. Chorei muito, de novo, por causa de você, cadáver do meu coração, que achei que nunca conseguiria enterrar.
Passou um tempo até eu conseguir outro emprego. Você se casou com ele, disseram que a cerimônia foi linda, você estava felicíssima, vocês se beijaram tão apaixonadamente na frente do padre que ele até ficou vermelho de vergonha. Não tive como não imaginar. A lua de mel de vocês. Outro homem possuindo o corpo que tanto desejei ser meu, para sempre. Para me vingar – vingança tola, como são todas as vinganças –, mergulhei no sexo. Paguei todas as prostitutas que pude, consumi todas elas. Também paquerei, fiquei, até levei algumas mulheres para a cama. Fiz a minha purgação. Uma delas gostou de mim, começamos a namorar.
O tempo passou. Trabalhei, noivei. Hoje, abro minha caixa de entrada e tem um e-mail seu. Pensei no que você ia querer de mim. O livro que você me emprestou e nunca devolvi? Convidar para o seu aniversário de casamento? Anunciar o nascimento de seu primeiro filho? Você já tinha me feito sofrer demais com dúvidas. Abri para ver o que era. Eram lamentações. Ele foi carinhoso só no começo. Depois, se revelou um machista, grosso, preguiçoso, mal-educado. Suportou isso enquanto pôde, até que ele começou a bater em você. Diz que agüentou alguns meses. Em nome do amor, decidiu esperar que ele mudasse. Não mudou. Você voltou para a casa dos pais, pediu o divórcio, o caso está na Justiça. Diz que agora está arrependida do que fez comigo. Que não sabe como desperdiçou tanto amor. Que se pudesse voltar no tempo jamais teria me dito “não”. Que não mandava em seu coração, que na época só pensava nele, só queria saber dele, “alto, bonito, inteligente, divertido, forte...” Você quer se encontrar comigo. Pede reconciliação.
Você não tem noção do que fez comigo. Melhor seria se você nunca tivesse me beijado. Você não tem culpa de eu ter me apaixonado por você nem era obrigada a corresponder, mas você me provocou. Você me deu falsa esperança. Você deixou que eu mergulhasse no oceano da ilusão. Você transformou meu melhor amigo em meu maior rival. Por sua causa, mudei de serviço. Agora, depois de tanto esforço para reconstruir minha vida, quando achava que você já era página virada, você aparece. E a coerência com suas escolhas? Você irá me responder: no coração não existe lógica. Eu sei. Se eu fosse lógico, não teria me apaixonado nunca por você. Posso até estar errado, mas é o que diz meu coração. E no meu coração eu também não mando.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Tellin' a borin' story in a boring day...
Ele odiava sair de casa atrasado. Quase tanto quanto acordar cedo. Foi violentamente desmamado de um belo sonho pela necessidade de labutar. E eis que surge uma bola de neve de desgraças irrelevantes sucedendo-se em um roteiro demente. É sempre assim. Pela pressa, você não se enxuga direito ao sair do banho, e o prenúncio de um dia patético lhe presenteia com um par de protetores de ouvido à base de espuma de sabonete. Você corre com um par de meias trocadas, uma gravata esteticamente desprezível, segurada por um nó hermeticamente incorrigível. O café fervendo salta de forma suicida contra sua camisa amarrotada, formando um manchado manifesto sobre sua competência em fracassar como bípede pensante. Ao beijar sua esposa antes de atravessar a porta rachada, ele a nota sorrindo ansiosa diante sua saída, antes de rumar ao telefone no qual ela sussurrará malícias. Ser corno não era a pior de suas trapalhadas.
E lá se vai nosso anti-herói mor, dando seguimento ao seu dia chuvoso, em um coletivo sem cobrador. É claro que ele chocou violentamente a cabeça calva contra a barra de ferro enquanto o motorista equilibrava-se entre contar o troco da linda mulher que jamais lhe daria atenção e fazer o veículo andar. É claro que ao desembarcar foi abraçado por uma lamacenta poça d’água provocada por outro integrante da frota do transporte público urbano carioca. Sem cobrador. É claro, é claro.
Mas hoje seria diferente. Não só o hoje, ou o ontem, mas todos os segundos pelas infinitas sucessões de segundos até a temporalidade pedir aposentadoria. Por um motivo surpreendente. Ele descobrira onde se esconde Deus. Após todos esses milênios, é óbvio que o único ser a alcançar o Criador seria justamente aquele que há muito parou de se preocupar com Ele que sempre lhe delegou um rotineiro papel de coadjuvante número 1.984, gordinho e calvo (apesar de ter emagrecido 300 gramas no verão passado). Nada disso possuía relevância agora, ele descobriu onde Ele se metera. E neste exato momento, ele Lhe daria uma lição. Mesmo amarrotado, manchado de um café forte e amargo, com a orelha aureolada por sabão de banho, ele Lhe mostraria que as coisas não podiam ser feitas daquela maneira. Toda Sua pirotecnia emo não serviria para nada. Jesse Custer que se conformasse em ter a fila furada em seu ato de satisfações tomadas. O toque irônico da confusão toda é que ele seria magistralmente corneado enquanto cometia seguidas blasfêmias físicas capazes de deixar o caído rubro de vergonha.
E lá se vai nosso anti-herói mor, dando seguimento ao seu dia chuvoso, em um coletivo sem cobrador. É claro que ele chocou violentamente a cabeça calva contra a barra de ferro enquanto o motorista equilibrava-se entre contar o troco da linda mulher que jamais lhe daria atenção e fazer o veículo andar. É claro que ao desembarcar foi abraçado por uma lamacenta poça d’água provocada por outro integrante da frota do transporte público urbano carioca. Sem cobrador. É claro, é claro.
Mas hoje seria diferente. Não só o hoje, ou o ontem, mas todos os segundos pelas infinitas sucessões de segundos até a temporalidade pedir aposentadoria. Por um motivo surpreendente. Ele descobrira onde se esconde Deus. Após todos esses milênios, é óbvio que o único ser a alcançar o Criador seria justamente aquele que há muito parou de se preocupar com Ele que sempre lhe delegou um rotineiro papel de coadjuvante número 1.984, gordinho e calvo (apesar de ter emagrecido 300 gramas no verão passado). Nada disso possuía relevância agora, ele descobriu onde Ele se metera. E neste exato momento, ele Lhe daria uma lição. Mesmo amarrotado, manchado de um café forte e amargo, com a orelha aureolada por sabão de banho, ele Lhe mostraria que as coisas não podiam ser feitas daquela maneira. Toda Sua pirotecnia emo não serviria para nada. Jesse Custer que se conformasse em ter a fila furada em seu ato de satisfações tomadas. O toque irônico da confusão toda é que ele seria magistralmente corneado enquanto cometia seguidas blasfêmias físicas capazes de deixar o caído rubro de vergonha.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Camisetas personalizadas de tarja preta
Tudo escuro e silencioso, as condições perfeitas para uma grande fuga. Silêncio, vocês atrás de mim! Não vamos estragar tudo agora, principalmente porque eu quem tive o esforço de arquitetar a coisa toda de forma perfeita. Gabriel, seu rufião dançarino, pare com a maldita Macarena! Se Freud estivesse vivo ele criaria a Pulsão Macarena em sua homenagem, seu merdinha. Em locais comuns, as paredes possuem ouvidos. Em um hospício, as paredes possuem ouvidos, câmeras de segurança e leões de chácara que se fingem de enfermeiros, então tratem de fazer silêncio para que tudo continue escuro e silencioso! Droga, Bernardete, jogar o urinol cheio na parede de vidro não foi uma atitude legal da tua parte. Eu te disse que vinganças e represálias deveriam ficar para depois que escaparmos. Agora, voltemos antes que os enfermeiros gorilões cheguem. Todo mundo, em fila indiana, por favor. Indiana, já falei! É mais fácil coordenar babuínos com diarréia crônica no uso de uma única privada do que loucos em fuga de um hospício...
Eu mereço estar aqui. Só os presos são inocentes que não merecem estar na prisão, os loucos sempre merecem estar onde estão. Eles merecem estar para não poderem estar para merecerem sair e estar. Entendeu? Meu psiquiatra também não. Vai ver por isso ainda estou aqui, sem entrar no mérito do merecimento. Ou não. Mas não importa. Tudo começou com um plano perfeito. Uma coisa muito simples: eu ia dominar o mundo. Para isso, eu precisava de uma estratégia. Eu ia enlouquecer as pessoas para depois domina-las. Como? Essa é a parte brilhante: camisetas personalizadas! CA-MI-SE-TAS PER-SO-NA-LI-ZA-DAS! Eu, Rodrigo Rodrigues Rojas, sou um gênio! Bastava entrar em cada e-mail, fotolog, blog e alma de todas as pessoas, oferecendo minhas camisetas personalizadas diariamente até fazê-las, as pessoas, e as camisetas também!, babar e espumar de insanidade. Se elas se interessassem, melhor ainda, vendia qualquer Hering manchada e ainda ganhava unzinho. O Coringa e o dr. Evil que se fodam, sou mais eu!
O plano funcionava harmonicamente, um lago dos cisnes maquiavélico e vitorioso. O problema foi quando eu comecei a mandar as ofertas de camisetas para mim mesmo. Nesse exato momento, percebi que talvez eu não fosse muito normal. Especial, como diria mamãe. Fui procurar ajuda profissional, então, e me jogaram nesta joça de paredes brancas. Eu podia falar um palavrão. Vou falar. Não, não vou não. Vou enviar camisetas personalizadas, pois é bem pior. Mas o local não é de todo ruim, vejam bem, conheci pessoas muito interessantes. O Gabriel, já lhes falei do Gabriel? Um figura, ele dança a Macarena compulsiva e cotidianamente, é impressionante. Porém, o mais importante é que o recinto provia minha sede de poder com o maravilhoso néctar da pós-modernidade comunicacional, a internet. Jamais abandonei meu mantra das camisas. Minha atual vítima é um blogueiro desses aí. Ele está prestes a vir fazer parte do séquito particular que formei por aqui, eu pressinto.
Consegui alimentar a boca faminta por olhares e insanidades desse estabelecimento com louvor. Minha tática das camisetas revelou-se estrondosamente frutífera no objetivo de me agregar seguidores. Bernardete foi o exemplo melhor sucedido do que seria a pupila perfeita. Provavelmente ela me sucederia no trono da nova ordem Rodrigo-rodrigues-rojiana mundial que se anunciava. Mas seu ato impensado e arremessador de urinóis necessitava de represália. Uma pena. Vou ter que deixá-la sem bananada no jantar de hoje.
Mas nada disso importa, tudo está escuro e silencioso novamente. O ontem foi um outro dia que não o hoje. E o hoje é o dia onde tudo ocorrerá sem deslizes. Já estamos quase no fim do corredor de número não importa, e agora é o momento mais complicado, pois precisamos passar pelos enfermeiros vigias do turno da noite. É agora. Isso, Gabriel, distraia-os com a Macarena enquanto rumo à minha liberdade = dominação do mundo = tirania para o resto das pessoas! Sinto a sede de poder sendo saciada gradativamente pela porta última tornando-se cada vez maior em minhas retinas, está tão perto, está tão perto... dor.
Muita dor. Geralmente este é o resultado do choque de um cacetete contra uma cabeça. E se a cabeça for a minha, então a situação torna-se realmente dramática. É a quarta vez só essa semana que a fuga fracassa. Pelo visto, Gabriel não tem treinado a Macarena o suficiente, preciso alertá-lo para tal detalhe. Enquanto sou arrastado para meus aposentos, sou informado que, assim como Bernardete, ficarei sem minha bananada no jantar. Droga. Até os gênios precisam de planos melhores de vez em quando. Mas não há motivo para pânico. O cara do blog está para chegar e, então, tudo será diferente. Eu pressinto.
Eu mereço estar aqui. Só os presos são inocentes que não merecem estar na prisão, os loucos sempre merecem estar onde estão. Eles merecem estar para não poderem estar para merecerem sair e estar. Entendeu? Meu psiquiatra também não. Vai ver por isso ainda estou aqui, sem entrar no mérito do merecimento. Ou não. Mas não importa. Tudo começou com um plano perfeito. Uma coisa muito simples: eu ia dominar o mundo. Para isso, eu precisava de uma estratégia. Eu ia enlouquecer as pessoas para depois domina-las. Como? Essa é a parte brilhante: camisetas personalizadas! CA-MI-SE-TAS PER-SO-NA-LI-ZA-DAS! Eu, Rodrigo Rodrigues Rojas, sou um gênio! Bastava entrar em cada e-mail, fotolog, blog e alma de todas as pessoas, oferecendo minhas camisetas personalizadas diariamente até fazê-las, as pessoas, e as camisetas também!, babar e espumar de insanidade. Se elas se interessassem, melhor ainda, vendia qualquer Hering manchada e ainda ganhava unzinho. O Coringa e o dr. Evil que se fodam, sou mais eu!
O plano funcionava harmonicamente, um lago dos cisnes maquiavélico e vitorioso. O problema foi quando eu comecei a mandar as ofertas de camisetas para mim mesmo. Nesse exato momento, percebi que talvez eu não fosse muito normal. Especial, como diria mamãe. Fui procurar ajuda profissional, então, e me jogaram nesta joça de paredes brancas. Eu podia falar um palavrão. Vou falar. Não, não vou não. Vou enviar camisetas personalizadas, pois é bem pior. Mas o local não é de todo ruim, vejam bem, conheci pessoas muito interessantes. O Gabriel, já lhes falei do Gabriel? Um figura, ele dança a Macarena compulsiva e cotidianamente, é impressionante. Porém, o mais importante é que o recinto provia minha sede de poder com o maravilhoso néctar da pós-modernidade comunicacional, a internet. Jamais abandonei meu mantra das camisas. Minha atual vítima é um blogueiro desses aí. Ele está prestes a vir fazer parte do séquito particular que formei por aqui, eu pressinto.
Consegui alimentar a boca faminta por olhares e insanidades desse estabelecimento com louvor. Minha tática das camisetas revelou-se estrondosamente frutífera no objetivo de me agregar seguidores. Bernardete foi o exemplo melhor sucedido do que seria a pupila perfeita. Provavelmente ela me sucederia no trono da nova ordem Rodrigo-rodrigues-rojiana mundial que se anunciava. Mas seu ato impensado e arremessador de urinóis necessitava de represália. Uma pena. Vou ter que deixá-la sem bananada no jantar de hoje.
Mas nada disso importa, tudo está escuro e silencioso novamente. O ontem foi um outro dia que não o hoje. E o hoje é o dia onde tudo ocorrerá sem deslizes. Já estamos quase no fim do corredor de número não importa, e agora é o momento mais complicado, pois precisamos passar pelos enfermeiros vigias do turno da noite. É agora. Isso, Gabriel, distraia-os com a Macarena enquanto rumo à minha liberdade = dominação do mundo = tirania para o resto das pessoas! Sinto a sede de poder sendo saciada gradativamente pela porta última tornando-se cada vez maior em minhas retinas, está tão perto, está tão perto... dor.
Muita dor. Geralmente este é o resultado do choque de um cacetete contra uma cabeça. E se a cabeça for a minha, então a situação torna-se realmente dramática. É a quarta vez só essa semana que a fuga fracassa. Pelo visto, Gabriel não tem treinado a Macarena o suficiente, preciso alertá-lo para tal detalhe. Enquanto sou arrastado para meus aposentos, sou informado que, assim como Bernardete, ficarei sem minha bananada no jantar. Droga. Até os gênios precisam de planos melhores de vez em quando. Mas não há motivo para pânico. O cara do blog está para chegar e, então, tudo será diferente. Eu pressinto.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Crônicas Ferdinandas
Belo texto do meu nobre favorito, Dom Ferdinando. Continue meu colaborador assíduo, vossa ferdineza!
Abraço!
Sala vazia. A luz está baixa. Algumas revistas espalhadas na mesinha de centro. Dezenas de DVD’s jogados no chão de madeira: filmes, shows, documentários. Televisão e aparelho de som, desligados. Uma taça, vazia, está sobre a mesinha; seu fundo avermelhado revela que alguém acabou de tomar vinho tinto nela. O tempo está frio, a janela fechada, mas nada que impeça a invasão do barulho de carros que sobem e descem a rua em frente ao prédio.
Ouvem-se passos. Primeiro, soam abafados atrás da porta de um dos quartos. Quando a porta se abre, surge ela, a dona dos passos, dona do apartamento. Pele branca, corpo definido, harmônico. Perfeita para os seus vinte e cinco anos. Os longos cabelos negros oscilam entre o liso e o ondulado, ainda mais quando estão despenteados. Ela usa um vestido de alcinha, da mesma cor dos seus cabelos e que, de pé, não cobre mais que a metade da coxa. Descalça, os passos ecoam ainda mais forte no seu chão, teto alheio.
Sentada no sofá, acende a luz principal da sala e bota no colo o gato que a seguia desde o quarto. Ela o acaricia, diz palavras de ternura incompreensíveis, a não ser para o animal. Aperta-o contra si, beija-o e o põe novamente no chão. Ela se debruça até a mesinha de centro, puxa uma revista qualquer e começa a folheá-la. Logo depois, pega o controle remoto jogado sobre o sofá, aponta-o para o som e seleciona: CD; Play; Faixa 3. O som do piano invade o apartamento inteiro. Apenas as mãos permanecem com a revista. O pensamento canta silenciosamente.
“Quand il me prendre dans ses bras / Il me parle tout bas / Je vois la vie en rose”
Ela esquece a revista e se deita no sofá. A música penetra sua alma e, assim como seu amado, em breve penetrará também no seu corpo. Lentamente ergue uma das pernas. Passa as mãos uma, duas, três vezes. Fecha os olhos para sentir as mãos dele ao invés das suas. Progressivamente a canção a fará ter as mesmas sensações que a noite anterior com seu homem lhe proporcionara.
“Il me dit des mots d’amour / Des mots des tout les jours / Et ça me fait quelque chose”
Sempre deitada, suas mãos (ou seria as mãos dele?) continuam a acariciar suas pernas. Passeia uma das mãos pelas coxas, a outra deixa cair por sobre o vestido. O toque, a música, os olhos fechados, tudo a faz se esquecer do resto. Um momento que não é só dela, mas de alguém que dá vida ao seu corpo e a sua alma.
“Il est entré dans mon coeur / Une part de bonheur”
O hino ao amor entra em sua carne. As duas mãos a acariciam por baixo do vestido. Envolvem os seios, passeiam em volta dos mamilos, descem pela barriga, chegam até a virilha... Vão para as nádegas... Tocam em tudo que está ao seu alcance. Ao contrário da canção eternizada por Piaf, não era apenas uma parte de felicidade que a possuía: era o êxtase, a realização do desejo, o gozo, o prazer, enfim, que a inundava. Revelavam-nos os gemidos, sorrisos, pulos e tremidas.
“C’est lui pour moi / Moi pour lui dans la vie / Il me l’a dit, l’a juré / Pour la vie”
Via-o claramente em seus olhos fechados, sentia o calor do corpo dele sobre o seu. O tórax dele pressionando seus seios, a língua que lambe e sussurra palavras de tesão e de amor na sua orelha, as pernas de ambos que se movem em sincronia e o juramento feito por ele – não dito, mas cumprido – de possuí-la, amá-la e querê-la como se toda vez que o fizesse fosse a primeira, a última e a mais importante.
“Et dès que je m’aperçois / Alors je sens en moi / Mon coeur qui bat”
Não ouve mais a música que termina. Todos os sentidos se deslocam para seu corpo. O clímax ultrapassa a divinal arte dos enamorados. Se Piaf impôs o luto a si mesma após perder o amado, ela faria o inverso, não só porque seu homem continuava vivo, mas porque o sentia junto de si, na carne e no coração. Retirou o vestido, a calcinha, levantou as pernas, juntou-as, pôs as mãos entre elas, começou a pular rápida e repetidamente, gemeu, gritou... Sem luto, sem tragédia, sem “La vie en rose” ao fundo. Parou de pensar, de lembrar, até de viver por alguns segundos. Não abriu os olhos. Apenas sorria, toda para ele.
Adormeceu. Acordou sob os lençóis, vestida dos pés à cabeça. Olhou pela janela. Chovia. Viu o relógio, a parede, a cabeceira da cama. Tudo como antes, nada havia de novo. Dura realidade à sua volta, em que a taça não guarda nenhum sinal da bebida dos deuses. Sonhar é viver, pensou ela. Infelizmente, o inverso não é verdadeiro. Viver é estar condenado a suportar o mais duro pesadelo para a alma humana: não ter a quem se deseja.
Abraço!
Sala vazia. A luz está baixa. Algumas revistas espalhadas na mesinha de centro. Dezenas de DVD’s jogados no chão de madeira: filmes, shows, documentários. Televisão e aparelho de som, desligados. Uma taça, vazia, está sobre a mesinha; seu fundo avermelhado revela que alguém acabou de tomar vinho tinto nela. O tempo está frio, a janela fechada, mas nada que impeça a invasão do barulho de carros que sobem e descem a rua em frente ao prédio.
Ouvem-se passos. Primeiro, soam abafados atrás da porta de um dos quartos. Quando a porta se abre, surge ela, a dona dos passos, dona do apartamento. Pele branca, corpo definido, harmônico. Perfeita para os seus vinte e cinco anos. Os longos cabelos negros oscilam entre o liso e o ondulado, ainda mais quando estão despenteados. Ela usa um vestido de alcinha, da mesma cor dos seus cabelos e que, de pé, não cobre mais que a metade da coxa. Descalça, os passos ecoam ainda mais forte no seu chão, teto alheio.
Sentada no sofá, acende a luz principal da sala e bota no colo o gato que a seguia desde o quarto. Ela o acaricia, diz palavras de ternura incompreensíveis, a não ser para o animal. Aperta-o contra si, beija-o e o põe novamente no chão. Ela se debruça até a mesinha de centro, puxa uma revista qualquer e começa a folheá-la. Logo depois, pega o controle remoto jogado sobre o sofá, aponta-o para o som e seleciona: CD; Play; Faixa 3. O som do piano invade o apartamento inteiro. Apenas as mãos permanecem com a revista. O pensamento canta silenciosamente.
“Quand il me prendre dans ses bras / Il me parle tout bas / Je vois la vie en rose”
Ela esquece a revista e se deita no sofá. A música penetra sua alma e, assim como seu amado, em breve penetrará também no seu corpo. Lentamente ergue uma das pernas. Passa as mãos uma, duas, três vezes. Fecha os olhos para sentir as mãos dele ao invés das suas. Progressivamente a canção a fará ter as mesmas sensações que a noite anterior com seu homem lhe proporcionara.
“Il me dit des mots d’amour / Des mots des tout les jours / Et ça me fait quelque chose”
Sempre deitada, suas mãos (ou seria as mãos dele?) continuam a acariciar suas pernas. Passeia uma das mãos pelas coxas, a outra deixa cair por sobre o vestido. O toque, a música, os olhos fechados, tudo a faz se esquecer do resto. Um momento que não é só dela, mas de alguém que dá vida ao seu corpo e a sua alma.
“Il est entré dans mon coeur / Une part de bonheur”
O hino ao amor entra em sua carne. As duas mãos a acariciam por baixo do vestido. Envolvem os seios, passeiam em volta dos mamilos, descem pela barriga, chegam até a virilha... Vão para as nádegas... Tocam em tudo que está ao seu alcance. Ao contrário da canção eternizada por Piaf, não era apenas uma parte de felicidade que a possuía: era o êxtase, a realização do desejo, o gozo, o prazer, enfim, que a inundava. Revelavam-nos os gemidos, sorrisos, pulos e tremidas.
“C’est lui pour moi / Moi pour lui dans la vie / Il me l’a dit, l’a juré / Pour la vie”
Via-o claramente em seus olhos fechados, sentia o calor do corpo dele sobre o seu. O tórax dele pressionando seus seios, a língua que lambe e sussurra palavras de tesão e de amor na sua orelha, as pernas de ambos que se movem em sincronia e o juramento feito por ele – não dito, mas cumprido – de possuí-la, amá-la e querê-la como se toda vez que o fizesse fosse a primeira, a última e a mais importante.
“Et dès que je m’aperçois / Alors je sens en moi / Mon coeur qui bat”
Não ouve mais a música que termina. Todos os sentidos se deslocam para seu corpo. O clímax ultrapassa a divinal arte dos enamorados. Se Piaf impôs o luto a si mesma após perder o amado, ela faria o inverso, não só porque seu homem continuava vivo, mas porque o sentia junto de si, na carne e no coração. Retirou o vestido, a calcinha, levantou as pernas, juntou-as, pôs as mãos entre elas, começou a pular rápida e repetidamente, gemeu, gritou... Sem luto, sem tragédia, sem “La vie en rose” ao fundo. Parou de pensar, de lembrar, até de viver por alguns segundos. Não abriu os olhos. Apenas sorria, toda para ele.
Adormeceu. Acordou sob os lençóis, vestida dos pés à cabeça. Olhou pela janela. Chovia. Viu o relógio, a parede, a cabeceira da cama. Tudo como antes, nada havia de novo. Dura realidade à sua volta, em que a taça não guarda nenhum sinal da bebida dos deuses. Sonhar é viver, pensou ela. Infelizmente, o inverso não é verdadeiro. Viver é estar condenado a suportar o mais duro pesadelo para a alma humana: não ter a quem se deseja.
domingo, 29 de julho de 2007
Momentos em cena
Breve, porém importante, prólogo:
Esta história não contem plágios, apenas homenagens. A honraria, claro que para mim, é contar com três belas cenas de três maravilhosos filmes. Para quem desejar, fica o desafio: tente adivinha-los. Na verdade, estas palavras contêm uma quarta homenagem: para minha grande amiga Ana Paula, sobre quem tenho certeza que continuará seguindo sem desistir jamais. Boa leitura.
Meu Deus, já são cinco horas. Os despachos acumulam-se na minha mesa jogando em meu rosto o atraso inevitável. Impossível não olhar para minha cela de labuta sem imaginar um fosso de cobras amaldiçoadas pelo veneno de mais um dia de trabalho burocrático. Meu rosto impassível disfarçaria para qualquer observador a luta épica que se travava em meu ser entre minha essência workaholic e a vontade de encontrar-me com meu destino. Como deveria estar meu olhar agora? Se é que ainda tenho um olhar, pois às vezes nem sei se continuo com minha alma. Este último pensamento encheu meu terno de coragem, que tomado de vontade própria jogou-se contra o medievo fosso sem se importar com a descarga de adrenalina que meu coração teve que subitamente suportar. Ficaram para trás as cobras, os relatórios e os sonhos frustrados pelos quais nunca lutei, formando um melancólico teatro de fantasmas sombrios, que me direcionaram um último olhar de inveja por ter conseguido escapar. Ainda volto para liberta-los.
De uma só passada aterrizei no elevador que me conduziria ao térreo do Rio Branco 165. Do topo ao térreo, do meu esterelizado céu imaginário às calçadas sujas de pedras portuguesas deslocadas. Rumo ao meu destino. Apenas a uma espera e rostos cotidianos adentrando a cada andar. Mar de olhares vividos diversamente. Como a moça de face cansada de atuar em um dos diversos apartamentos do edifício subdivididos em placebos para a solidão alheia. Seus olhos enviavam mensagens implorando por socorro urgente. Meus olhos recebiam esses sinais com a compreensão de quem já os produziu. Pois essa era a principal rotina deles na primeira vez em que cruzei com meu destino, quando estávamos naquele congresso sobre números, potencialização de lucros e formas não-ditas e diversas de pensar sobre suicídio. Na cafeteria, quando ela percorreu meus braços com seus dedos, nunca nada me pareceu tão correto. A maneira como ela fechava os olhos e inclinava levemente seu rosto, enquanto eu percorria calmamente seus lábios, nunca nada me pareceu tão correto. Enquanto Nina Simone nos hipnotizava melodiosamente, nos trazendo em sua voz almas salvas de noites solitárias no momento certo, você dançando de olhos fechados me alertando sobre a possibilidade d'eu não conseguir voltar para a minha mesmice lentamente letal. A coragem ter sugerido ao pé de meu ouvido concordar com seu alerta como minha promessa de eterna entrega a você, nunca nada me pareceu tão correto.
Lembranças presas na gaiola de metal que descia de forma lenta, hesitante, ouso dizer. O mar se revoltava de mais e mais correntezas de destinos incertos. Um par de olhos sábios o suficiente para pousar no mundo com a sensação de maravilhamento de como quem vive pela primeira vez. Por baixo de aros pesados de plástico escuro, o conhecimento de que para se manter a chama da primeira vez, basta vivê-la sempre de forma diferente, ainda que com a mesma pessoa. Repetir não é viver, e sim o nobre ofício de papagaios e pessoas pequenas. Ou seja, tudo a que se resumia minha rotina aspirante à vida. Ou seja, tudo que, para minha bênção, foi dragado pelo teu corpo em L ao meu lado, com teus longos cabelos negros emoldurando todas as razões para eu jamais deixar de ser digno de seu olhar de entrega. O mesmo sol que te levou pela manhã me mostrou, enquanto atordoado eu procurava por possíveis vestígios teus, o pedaço de papel amassado com um telefone de hotel escrito com batom.
“O que você quer pedir?”
“Pergunta metafísica ou pragmática mesmo?”
“Como?”
“Nada. Uma cerveja escura. Mais para adocicada.”
“Uma garrafa de Periquita e a melhor marca de brown ale que você tiver, por favor.”
“Meu Deus. Como você pode ser tão obtuso?”
“Tudo bem... garçom, você poderia trocar a Brown ale por uma skolzinha mesmo?”
“Nossa, eu poderia gargalhar agora! Só não o faço porque é a minha vida e você continua parte dela. Estou cansada de investir em algo natimorto, nunca consegui entender se você realmente tem capacidade para se importar ou não. Distância não se mede só pelo espaço físico, mas pela intensidade do olhar. E cada vez que tento ver se há qualquer resquício de vida aí dentro, eu que acabo morrendo. Lentamente. É muito chato ouvir sua própria marcha fúnebre. Desde nossa primeira noite no hotel até todas as outras. É por isso que estou indo embora.”
“Mas... talvez eu seja somente um morto aprendendo a viver pela primeira vez com você e...”
“Mais alguma coisa, senhor?”
“Como? Onde está...”
“A tua companhia, senhor? Creio que ela está entrando naquele táxi agora.”
“parem aquele táxi...”
“Se me permite, caso o senhor corra em direção ao veículo bradando ao invés de sibilar pateticamente, talvez surta o efeito que acho que o senhor pretende”
“PAREM A MERDA DO TÁXI!”
“Como, amigo, é comigo? Você está bem, correndo como um louco, esse olhar desesperado como quem estagnou eternamente no último suspiro antes de morrer? Senhora, você tem certeza que quer baixar a janela para falar com este louco?”
“O que você quer?”
“Eu... não vou conseguir dormir esta noite”
“Eu também não”
Não consigo situar em época alguma quando se deu nosso último diálogo, apesar de me lembrar da respiração exata onde cada sílaba foi libertada. É como se eu o tivesse arrancado do tempo e o emoldurado dentro da minha alma, eu sempre soube que você iria marcá-la de alguma maneira, eternamente. Agora, só preciso arranjar um jeito de fazer parar de doer e soprar vida na lembrança de você, para que possamos repintar tudo com as cores fortes da tua personalidade que se impõem pelo seu olhar. Meus Deus, não perdi a mania de falar contigo como se estivesses ao meu lado. Depois de todo esse tempo, minha alma tentou escapar pela minha garganta quando te vi olhando sarcasticamente as pinturas de celebridades feitas pelos artistas de rua da Rio Branco. Como se ela se jogasse em direção à tua com a certeza da necessidadede rumar ao seu destino. Observei-te semanas, tentando criar o momento perfeito para retomar você. O fato d'eu finalmente ter caído em mim que momentos perfeitos são os espontâneos mostra que finalmente conseguiremos viver de forma plena o que merecemos. Da janela do táxi, te busco pelo trajeto que você fez ao longo de toda essa semana. De repente, uma silhueta de costas. A tua. É hora. Salto para você ignorando banalidades como trocados e transeuntes, não voltarei a parar até te alcançar. Naquela hora, as janelas que fitavam de cima a correnteza humana daquela avenida movimentada viram tua face baixa, encostada em meu ombro, bailando candidamente ao sabor da gravidade, e meus ouvidos sussurando palavras que sempre só pertencerão a nós. Naquele dia, todos aqueles prédios tão altos viram dois destinos serem selados. Para sempre.
Esta história não contem plágios, apenas homenagens. A honraria, claro que para mim, é contar com três belas cenas de três maravilhosos filmes. Para quem desejar, fica o desafio: tente adivinha-los. Na verdade, estas palavras contêm uma quarta homenagem: para minha grande amiga Ana Paula, sobre quem tenho certeza que continuará seguindo sem desistir jamais. Boa leitura.
Meu Deus, já são cinco horas. Os despachos acumulam-se na minha mesa jogando em meu rosto o atraso inevitável. Impossível não olhar para minha cela de labuta sem imaginar um fosso de cobras amaldiçoadas pelo veneno de mais um dia de trabalho burocrático. Meu rosto impassível disfarçaria para qualquer observador a luta épica que se travava em meu ser entre minha essência workaholic e a vontade de encontrar-me com meu destino. Como deveria estar meu olhar agora? Se é que ainda tenho um olhar, pois às vezes nem sei se continuo com minha alma. Este último pensamento encheu meu terno de coragem, que tomado de vontade própria jogou-se contra o medievo fosso sem se importar com a descarga de adrenalina que meu coração teve que subitamente suportar. Ficaram para trás as cobras, os relatórios e os sonhos frustrados pelos quais nunca lutei, formando um melancólico teatro de fantasmas sombrios, que me direcionaram um último olhar de inveja por ter conseguido escapar. Ainda volto para liberta-los.
De uma só passada aterrizei no elevador que me conduziria ao térreo do Rio Branco 165. Do topo ao térreo, do meu esterelizado céu imaginário às calçadas sujas de pedras portuguesas deslocadas. Rumo ao meu destino. Apenas a uma espera e rostos cotidianos adentrando a cada andar. Mar de olhares vividos diversamente. Como a moça de face cansada de atuar em um dos diversos apartamentos do edifício subdivididos em placebos para a solidão alheia. Seus olhos enviavam mensagens implorando por socorro urgente. Meus olhos recebiam esses sinais com a compreensão de quem já os produziu. Pois essa era a principal rotina deles na primeira vez em que cruzei com meu destino, quando estávamos naquele congresso sobre números, potencialização de lucros e formas não-ditas e diversas de pensar sobre suicídio. Na cafeteria, quando ela percorreu meus braços com seus dedos, nunca nada me pareceu tão correto. A maneira como ela fechava os olhos e inclinava levemente seu rosto, enquanto eu percorria calmamente seus lábios, nunca nada me pareceu tão correto. Enquanto Nina Simone nos hipnotizava melodiosamente, nos trazendo em sua voz almas salvas de noites solitárias no momento certo, você dançando de olhos fechados me alertando sobre a possibilidade d'eu não conseguir voltar para a minha mesmice lentamente letal. A coragem ter sugerido ao pé de meu ouvido concordar com seu alerta como minha promessa de eterna entrega a você, nunca nada me pareceu tão correto.
Lembranças presas na gaiola de metal que descia de forma lenta, hesitante, ouso dizer. O mar se revoltava de mais e mais correntezas de destinos incertos. Um par de olhos sábios o suficiente para pousar no mundo com a sensação de maravilhamento de como quem vive pela primeira vez. Por baixo de aros pesados de plástico escuro, o conhecimento de que para se manter a chama da primeira vez, basta vivê-la sempre de forma diferente, ainda que com a mesma pessoa. Repetir não é viver, e sim o nobre ofício de papagaios e pessoas pequenas. Ou seja, tudo a que se resumia minha rotina aspirante à vida. Ou seja, tudo que, para minha bênção, foi dragado pelo teu corpo em L ao meu lado, com teus longos cabelos negros emoldurando todas as razões para eu jamais deixar de ser digno de seu olhar de entrega. O mesmo sol que te levou pela manhã me mostrou, enquanto atordoado eu procurava por possíveis vestígios teus, o pedaço de papel amassado com um telefone de hotel escrito com batom.
“O que você quer pedir?”
“Pergunta metafísica ou pragmática mesmo?”
“Como?”
“Nada. Uma cerveja escura. Mais para adocicada.”
“Uma garrafa de Periquita e a melhor marca de brown ale que você tiver, por favor.”
“Meu Deus. Como você pode ser tão obtuso?”
“Tudo bem... garçom, você poderia trocar a Brown ale por uma skolzinha mesmo?”
“Nossa, eu poderia gargalhar agora! Só não o faço porque é a minha vida e você continua parte dela. Estou cansada de investir em algo natimorto, nunca consegui entender se você realmente tem capacidade para se importar ou não. Distância não se mede só pelo espaço físico, mas pela intensidade do olhar. E cada vez que tento ver se há qualquer resquício de vida aí dentro, eu que acabo morrendo. Lentamente. É muito chato ouvir sua própria marcha fúnebre. Desde nossa primeira noite no hotel até todas as outras. É por isso que estou indo embora.”
“Mas... talvez eu seja somente um morto aprendendo a viver pela primeira vez com você e...”
“Mais alguma coisa, senhor?”
“Como? Onde está...”
“A tua companhia, senhor? Creio que ela está entrando naquele táxi agora.”
“parem aquele táxi...”
“Se me permite, caso o senhor corra em direção ao veículo bradando ao invés de sibilar pateticamente, talvez surta o efeito que acho que o senhor pretende”
“PAREM A MERDA DO TÁXI!”
“Como, amigo, é comigo? Você está bem, correndo como um louco, esse olhar desesperado como quem estagnou eternamente no último suspiro antes de morrer? Senhora, você tem certeza que quer baixar a janela para falar com este louco?”
“O que você quer?”
“Eu... não vou conseguir dormir esta noite”
“Eu também não”
Não consigo situar em época alguma quando se deu nosso último diálogo, apesar de me lembrar da respiração exata onde cada sílaba foi libertada. É como se eu o tivesse arrancado do tempo e o emoldurado dentro da minha alma, eu sempre soube que você iria marcá-la de alguma maneira, eternamente. Agora, só preciso arranjar um jeito de fazer parar de doer e soprar vida na lembrança de você, para que possamos repintar tudo com as cores fortes da tua personalidade que se impõem pelo seu olhar. Meus Deus, não perdi a mania de falar contigo como se estivesses ao meu lado. Depois de todo esse tempo, minha alma tentou escapar pela minha garganta quando te vi olhando sarcasticamente as pinturas de celebridades feitas pelos artistas de rua da Rio Branco. Como se ela se jogasse em direção à tua com a certeza da necessidadede rumar ao seu destino. Observei-te semanas, tentando criar o momento perfeito para retomar você. O fato d'eu finalmente ter caído em mim que momentos perfeitos são os espontâneos mostra que finalmente conseguiremos viver de forma plena o que merecemos. Da janela do táxi, te busco pelo trajeto que você fez ao longo de toda essa semana. De repente, uma silhueta de costas. A tua. É hora. Salto para você ignorando banalidades como trocados e transeuntes, não voltarei a parar até te alcançar. Naquela hora, as janelas que fitavam de cima a correnteza humana daquela avenida movimentada viram tua face baixa, encostada em meu ombro, bailando candidamente ao sabor da gravidade, e meus ouvidos sussurando palavras que sempre só pertencerão a nós. Naquele dia, todos aqueles prédios tão altos viram dois destinos serem selados. Para sempre.
terça-feira, 17 de julho de 2007
Ligeiro desabafo
Senhor. De um lado, Celso Roth e o tal do 3-6-1. De outro, Dunga, 4 cabeças-de-bagre, e a imprensa incensando o futebol que só ela e os seguidores de Lazaroni viram. Obina e Abedi substituíram Zico e Roberto, Romário e Bebeto e, vá lá, Edmundo e Sávio. São tempos estranhos, e o Maracanã cada dia mais me surge como um templo altero, distante. Eu não quero viver em um mundo de meninos lutando para comprar a camisa 5 no lugar da 10. Se lágrimas descessem do meu rosto agora, elas se organizariam com apenas um atacante e nenhum meia capaz de dar um passe de mais de 5 metros. Eu não quero viver em um mundo onde meninos comemoram o desarme no lugar do balãozinho. Se lágrimas descessem do meu rosto agora, elas cometeriam cerca de 30 faltas por tempo, às ordens de um "professor". Eu também sou professor, mas não mando meus alunos colarem. Eu não quero viver em um mundo onde meninos não acreditam mais em amor à primeira vista e futebol espetáculo. Aliás, grafemos como futebol-espetáculo. Torçamos para que o hífen preserve o que ex-cabeças de área medíocres querem separar.
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